Introdução ao Catecismo da Igreja Católica

August 20, 2015

CR = Catechismus Romanus

CEC = Catéchisme de l’Église Catholique (1ª edição francesa)

CCE = Catechismus Catholicæ Ecclesiæ (edição típica vaticana)

 

 

       - Histórico

       Em 1985, a Assembléia Extraordinária do Sínodo dos Bispos — no caso composta pelos presidentes das Conferências Episcopais de todo o mundo — estudou a aplicação do Concílio Vaticano II depois dos vinte anos que se tinham passado. Idealizaram a elaboração de um Catecismo.

        O objetivo era apresentar a totalidade orgânica da fé, em oposição aos reflexos parcelados a modo de spots e videoclips (cf. CCE 11). Mas isso não seria uma uniformização, uma censura?

        Jean Guitton achou que o CEC chegou com 25 anos de atraso. Já na época do Concílio, o cardeal Järger pedira um livro para aggiornar a catequese e os bispos holandeses publicaram em 1966 um catecismo que valeu uma declaração da Santa Sé dois anos depois fazendo correções. O cardeal Ratzinger era contra a elaboração de um Catecismo de universal porque não estava estabelecida ainda uma linguagem comum: oaggiornamento precipitado fazia que os novos livros logo se tornassem ultrapassados.

        Ultimamente cresceu a consciência de que só “atualizar” a catequese sem lhe dar conteúdo a torna ineficaz. Além disso, a uniformidade da aldeia global reclama a manifestação da unidade da fé: há urgência de elementos de unidade e iniciativas com nova unidade de pontos de vista.

        Em 10/07/86 João Paulo II constituiu a Comissão dos Doze (bispos e cardeais), tendo a testa o cardeal Ratzinger, com a tarefa de fazerem: a) um catecismo ou compêndio; b) que fosse referência para as várias regiões; c) fundamentado na Bíblia e na liturgia; d) adaptado à vida atual.

Processo de composição

        O resgate histórico do Catecismo de São Pio V permitiu aos Doze determinar que compêndio é uma coletânea, própria de literatura especializada, enquanto catecismo é anúncio (não necessariamente em perguntas e respostas). O Concílio de Trento quis a princípio fazer dois livros: Methodus (opúsculo para cultos sobre a Escritura) e Cathecismus (grande obra para os incultos).

Preferiram um livro só, que não pretendesse atender ao desnível cultural, mas fosse uma obra destina aos párocos, os catequistas de então. Não souberam que nome dar mesmo com o texto no prelo, e foi finalmente publicado como Catecismo Romano.

       O CCE seria um livro grande também, mas destinado aos bispos (mantenedores da estrutura catequética) e aos leigos (grandes colaboradores da tarefa catequética). Os autores não deveriam ser eruditos, mas pastores.

         Foram escolhidos para essa tarefa, os seguintes: Estepa (Espanha) e Maggiolini (Itália) para a parte dogmática; Medina (Chile) e Karlic (Argentina) para sacramentária; Honoré (França) e Konstant (Inglaterra) para moral; Pe. J. Carbon (maronita, Líbano) para oração (que escreveu num bunker, na Beirute sendo bombardeada). O unificador foi o bispo Christoph Schönborn. Houve grande surpresa quando a primeira versão foi aprovada por unanimidade.

         É de se frisar que o cardeal Honoré quis incluir o civismo entre as matérias tratadas nessa parte do CCE, ensejando a realização de um antigo sonho de São Josemaria: o ensino dos princípios que devem reger a vida cívica mesmo às crianças.

        A língua seria o latim, mas o anteprojeto de 1987 ficou muito ruim, pelo que se viu que o francês seria a língua operacional. Após as versões mais importantes e as oportunas correções, o texto ganharia a versão final latina (CCE).

        Para começar o CEC, a Comissão dos Doze teve de optar entre argumentar a partir da realidade atual ou a partir da fé. Reconheceram que a mera sincronia (exposição da fé a partir das verdades, independentemente do quando e do como foram reveladas) é cambiante e arbitrária, enquanto que a história da fé, simultaneamente diacrônica (que analisa os modos e os momentos da revelação) e sincrônica (que sintetiza o dado revelado), apesar de abstrata, evita a caducidade.

        A espinha dorsal escolhida foi a idéia do Reino de Deus, para que cada Igreja descobrisse o melhor sistema de exposição em cima dessa linha mestra.

 

        - Estrutura do texto

        Três foram os critérios para a organização do texto: 1) hierarquia das verdades (ordem e nexo com o cerne, não grau de certeza usual no trabalho teológico) com foco cristológico e compilação da matéria mnemônica da fé; 2) unidade e tradição; 3) realismo na exposição.

 

        - Hierarquia das verdades

         A verdade suprema a tudo iluminar é o Mistério da Trindade em suas obras divinas, na Igreja e em sua missão e na liturgia.

       As quatro partes em que se divide são os quatro passos do catecumenato. Já se acusou essa mistagogia de “platonismo para o povo”, mas é uma introdução ao batismo, à conversão e à liturgia. Para evitar eclesiocentrismo, relativismo e subjetivismo (segundo o idealismo alemão), evitou‑se chamar às quatro partes “o que a Igreja crê, celebra, vive e ora” (cf. CCE 2558).

         Primeira Parte, a porta das Igrejas: a fé, segundo um símbolo batismal, no caso o romano por ser o mais comum, e não conforme o símbolo conciliar. Comporta 39% dos pontos do CCE (no CR era 22%).

        Segunda Parte: os Sacramentos. Perfaz um terço da parte anterior, 23% do total (no CR era 37%).

      Terceira Parte: os mandamentos, num contexto cristão (Sermão da Montanha, dons do Espírito Santo, virtudes, justificação versus pecado e Evangelho versus lei). Essa contextualização da moral na esfera da graça manifesta a inesgotabilidade das “Dez Palavras” enquanto Palavra de Deus, que não podem ser equiparadas à Lei Mosaica como totalidade e regime do Pentateuco.

       O CEC foi a primeira exposição orgânica de Teologia Moral Fundamental, mas não entrou na questão das relações entre revelação, razão e natureza. Preferiu pressupor a opção da fé: ser capaz de amar, como Cristo. Essa parte perfaz 27% do CCE.

        Quarta Parte: a oração. Equivale a 11% do CCE, de modo que a primazia da graça no díptico “o que é — o que faz” fica bem clara.

 

        - Unidade e Tradição, e realismo na exposição

       A exegese bíblica deveria, segundo João Paulo II, ter por meta a vida cristã, estar alicerçada na oração e ser fiel ao Magistério. O embasamento do CCE na Bíblia manifesta‑se de modo especial no estudo das relações de Jesus com Israel. A base litúrgica serviu de alternativa diante do dilema de apoiar o texto na fé ou na história, pois é pela liturgia que comungamos com o mistério de Deus no tempo. Ao mesmo tempo, superou‑se assim a oposição dogma e didática versus história crítica: pois história sem doutrina se perde na ideologia.

       A clareza na exposição veio remediar o subjetivismo com a doutrina: como amar sem compreender?

 

       - Publicação e acolhida

       Trinta anos após a abertura do Concílio, João Paulo II promulgou em 7/12/92 o Catecismo da “unidade do mistério de Deus” como “norma segura para a doutrina da Igreja”.

        Houve teólogos radicais que encararam a obra como imposição do “partido romano” ou um novo “superdogma”. Mas o acolhimento foi sumamente positivo em todas as partes. Mais de mil bispos de todo o mundo tinham enviado mais de 24 mil modi, todos considerados.

 

        - A edição típica e sua autoridade

Após cinco anos, no quadragésimo ano do fechamento do Concílio, com a Carta Lætemur magnopere, João Paulo II promulgou a edição típica latina, com algumas correções.

       O CCE é um documento de direito pontifício que goza de largo apoio da colegialidade episcopal. Contudo, sua obrigatoriedade e autoridade não têm mais peso do que já possuía cada uma de suas partes ao ter sido proposta nas diversas épocas pelo Magistério da Igreja.

       Do ponto de vista pastoral, o CCE supôs uma manifestação de confiança nos jovens e leigos católicos, legítimos herdeiros do depósito da fé, e um prêmio ao seu sensus fidei, que contribuíra ao discernimento dos espíritos durante o confuso período pós‑conciliar. É como que uma “carta de maioridade e responsabilidade”.

 

Fonte: Depositum Fidei

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