Isto é o meu corpo

August 21, 2015

Sobre o significado evangélico da dimensão física da pessoa humana

 

 

 

        O corpo deve ser integrado ao estilo de vida de cada pessoa cristã, notadamente daquelas que são consagradas a Deus. Isso significa que, ao entregar-se ao Senhor, o indivíduo consagrado oferece também o próprio corpo, e o dispõe ao desgaste por amor do Reino de Deus, não descartando a possibilidade de que esta entrega redunde em martírio. Com efeito, um consagrado busca a configuração a Cristo, e o corpo de Cristo foi gasto por amor.     

       O consagrado que não possui essa consciência, dificilmente tem coragem para sofrer por amor a Deus e aos irmãos, especialmente se esse sofrimento for físico.  Isso ocorre porque ele não tem a noção suficiente a respeito da abrangência de sua consagração. Pode ser uma pessoa extremamente responsável com os seus compromissos e até mesmo fiel às suas promessas; porém, certamente fugirá das ocasiões em que se exigir dela uma entrega corporal, pois não entende que a doação de si é uma doação verdadeiramente integral.

       No contexto de uma consagração, o corpo deve expressar a pobreza, a castidade e a obediência professada. Entre outras coisas, o corpo exprime a pobreza através do jeito simples e despojado de se vestir; a castidade por meio do pudor, mas também dos gestos e das atitudes puras; a obediência pelo modo de se postar diante de Deus e das autoridades. Entretanto, essas posturas físicas devem ser expressões verdadeiras da pertença total do indivíduo a Deus e não um invólucro artificial adquirido apenas para a dimensão comportamental. Se a pessoa é consagrada, é isto que ela deve expressar: a verdade sobre o que ela é e não uma imagem falsa de si.

       O corpo de um consagrado deve testemunhar a vida de Cristo, inclusive os seus sofrimentos. Além do clássico texto paulino: “Completo na minha carne o que falta às tribulações de Cristo” (Cl 1, 24), existem outros não menos contundentes, que referendam essa proposição. Como este: “Incessantemente e por toda parte trazemos em nosso corpo a agonia de Jesus, a fim de que a vida de Jesus seja também manifestada em nosso corpo” (2 Cor 4, 10). E ainda: “A minha expectativa e a esperança é de que em nada serei confundido, mas com toda a ousadia, agora como sempre, Cristo será engrandecido em meu corpo, pela vida ou pela morte” (Fl 2, 20).

Esposo e esposa se contemplam, enfim, um ao outro em sua beleza. Esse encontro nupcial se atualiza em cada comunhão eucarística. Depois que compreendi isso, tremo intimamente toda vez que comungo. Sinto um Deus que é todo inteiro meu e desejo ser todo dele. É o momento em que aceito a imagem de Jesus em mim (pois somos como que uma só carne).

       Talvez não haja nenhum tipo de união a Cristo maior do que a comunhão eucarística, porque é a união de corpos. É a pertença mútua em sua modalidade cabal, como numa noite de núpcias. Dai porque não é suficiente adorar, é necessário comer (cf. Jo 6, 52-55). Essa foi a forma escolhida por Jesus para se unir mais intensamente a nós, pois “quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele” (Jo 6, 56).[8]

       Vivida profundamente, a doação de si encontra na comunhão eucarística o seu memorial. Essa experiência tem profundas e práticas repercussões na restauração da pessoa. Foi assim que a Eucaristia me curou (e não de maneira mágica ou supersticiosa). Quando comungo, minhas feridas, minhas misérias, meus traumas são como nada diante de Jesus. Sou como que introduzido num celeiro (cf. Can 2, 4). A mão esquerda de Cristo Ressuscitado fica sob a minha cabeça e a sua mão direita me abraça (cf. Can 8, 3). Beijo Jesus, sem medo, sem reservas. Sou restaurado em minha dignidade. E constato: “meu bem amado é para mim e eu para ele” (Can 2, 16a). Inclusive o corpo de ambos.

 

Ronaldo José de Sousa – Comunidade Remidos do Senhor

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