Família, torna-te aquilo que és! (Parte II)

FUNDAMENTAÇÃO TEOLÓGICA DO MATRIMÔNIO E DA FAMÍLIA

Durante o império romano foram construídas diversas vias que eram utilizadas para a mobilização bélica da “Pax Romana”. Posteriormente, a Igreja nascente muito utilizou destas vias para levar o Evangelho a todos os povos. Contudo, o Espírito do Senhor já havia escolhido uma via muito especial para que a verdadeira paz pudesse chegar ao coração do homem: A família.

Deus escolheu vir ao mundo através da formação de uma família. A encarnação de Jesus Cristo gera uma família. Logicamente já existiam famílias a milhares de anos antes do Natal do Senhor, porém, a criação da família de Nazaré renova e dá um novo sentido e uma nova dignidade às famílias. Se Deus escolhe ser família é porque este caminho certamente nos “leva a Roma”, ou melhor, nos leva a verdadeira paz que tanto buscamos:

Dentre essas numerosas estradas, a primeira e a mais importante é a família: uma via comum, mesmo se permanece particular, única e irrepetível, como irrepetível é cada homem; uma via da qual o ser humano não pode separar-se. O mistério divino da Encarnação do Verbo está, pois, em estreita relação com a família humana. Não apenas com uma — a de Nazaré —, mas de certo forma com cada família, analogamente a quanto afirma o Concílio Vaticano II do Filho de Deus que, na encarnação, «Se uniu de certo modo com cada homem». Seguindo a Cristo que «veio» ao mundo «para servir» (Mt 20, 28), a Igreja considera o serviço à família uma das suas obrigações essenciais. Neste sentido, tanto o homem como a família constituem «a via da Igreja».(Carta às Famílias, artigo 2, parágrafo 1).

Se for possível associar a família ao mistério da encarnação do Senhor, igualmente podemos associa-la ao mistério da cruz. O amor de Jesus por sua Igreja, demonstrado na doação total de Sua vida na cruz, torna-se fonte de graças abundantes para o casal. Ao mesmo tempo, este amor acolhido pelos esposos é convertido em sinal para a humanidade. A doação total dos esposos torna-se sinal visível (sacramento) do amor de Jesus Cristo pela sua Igreja:

Esta revelação chega à sua definitiva plenitude no dom do amor que o Verbo de Deus faz à humanidade, assumindo a natureza humana, e no sacrifício que Jesus Cristo faz de si mesmo sobre a cruz pela sua Esposa, a Igreja. Neste sacrifício descobre-se inteiramente aquele desígnio que Deus imprimiu na humanidade do homem e da mulher, desde a sua criação; o matrimônio dos batizados torna-se assim o símbolo real da Nova e Eterna Aliança, decretada no Sangue de Cristo. O Espírito, que o Senhor infunde, doa um coração novo e torna o homem e a mulher capazes de se amarem, como Cristo nos amou. O amor conjugal atinge aquela plenitude para a qual está interiormente ordenado: a caridade conjugal, que é o modo próprio e específico com que os esposos participam e são chamados a viver a mesma caridade de Cristo que se doa sobre a Cruz. (Familiaris Consortio, artigo 13, parágrafo 3).

Esta doação total deve caminhar para uma união muito além da carne. Quando entendido e vivido de forma verdadeira, o matrimônio se apresenta como uma pré-figuração da união definitiva do homem com o seu Deus. Se definirmos o céu como a união de nossa alma com a de Deus; pode-se afirmar que o matrimônio é a melhor e a mais perfeita pré-figuração desta realidade, já que o celibato se apresenta como uma antecipação escatológica. Esta pré-figuração pode ser embasada quando Tertuliano chega a afirmar que no matrimônio há a união de espíritos:

Numa página merecidamente famosa, Tertuliano exprimia bem a grandeza e a beleza desta vida conjugal em Cristo: «Donde me será dado expor a felicidade do matrimônio unido pela Igreja, confirmado pela oblação eucarística, selado pela bênção, que os anjos anunciam e o Pai ratifica? ... Qual jugo aquele de dois fiéis numa única esperança, numa única observância, numa única servidão! São irmãos e servem conjuntamente sem divisão quanto ao espírito, quanto à carne. Mais, são verdadeiramente dois numa só carne e donde a carne é única, único é o espírito». (Familiaris Consortio, artigo 13, parágrafo 4).

Da mesma forma Paulo VI, na Humanae Vitae, eleva a dignidade do matrimônio. Um amor humano e espiritual que é chamado a crescer no cotidiano da vida a ponto dos esposos tornarem-se um só coração e uma só alma, dentro da perfeição humana:

É, antes de mais, um amor plenamente humano, quer dizer, ao mesmo tempo espiritual e sensível. Não é, portanto, um simples ímpeto do instinto ou do sentimento; mas é também, e principalmente, ato da vontade livre, destinado a manter-se e a crescer, mediante as alegrias e as dores da vida cotidiana, de tal modo que os esposos se tornem um só coração e uma só alma e alcancem juntos a sua perfeição humana. (Humanae Vitae, artigo 9, parágrafo 2).

Família via da Igreja, família sinal de amor total e sinal de nossa união com Deus. Um caminho que apresenta dores e alegrias, como o caminho do Senhor. Um sinal de amor verdadeiro como o amor do Senhor derramado na cruz. Mas também um sinal de união, um “pedacinho” do céu na terra.


Fernando Soares Emerick

Fundador da Comunidade Amigos de Jesus

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