Papa João Paulo II às famílias

November 11, 2015

 

Homília do Papa João Paulo II, por ocasião do Jubileu das Familias no ano 2000

 

 

       [...] Caríssimas famílias, o vosso Jubileu é cântico  de  louvor  por  esta  bênção originária. Ela desceu sobre vós, casais cristãos, quando, ao celebrar o vosso matrimónio, jurastes reciprocamente amor perene diante de Deus. [...]

       Para o ser humano não são suficientes relações meramente funcionais. Ele precisa de relações interpessoais ricas de interioridade, gratuidade e oblatividade. Entre estas, é fundamental a que se realiza na família:  nas relações entre os cônjuges, e na deles com os seus filhos. Toda a grande rede das relações humanas brota e regenera-se continuamente a partir daquela relação com a qual um homem e uma mulher se reconhecem feitos um para o outro, e decidem unir as próprias existências num só projecto de vida:  "Por isso, um homem deixa seu pai e sua mãe, e une-se à sua mulher, e os dois tornam-se uma só carne" (Gn 2, 24).

 

       Uma só carne! Como não captar o vigor desta expressão? A palavra bíblica "carne" não recorda apenas o aspecto físico do homem, mas a sua identidade global de espírito e de corpo.O que os esposos  realizam  não  é  só  um  encontro  corpóreo,  mas  uma  verdadeira união  das  suas  pessoas.  Uma  união tão profunda, que os torna de certa forma um reflexo do "Nós" das Três Pessoas divinas na história (cf. Carta às famílias, 8).

       [...] No início! Só Ele, Jesus, conhece o Pai "desde o início", e conhece também o homem "desde o início". Ele é ao mesmo tempo o revelador do Pai e o revelador do homem ao homem (cf.Gaudium et spes, 22). Por isso, seguindo as suas pegadas, a Igreja tem a tarefa de testemunhar na história este desígnio originário, manifestando a sua verdade e praticabilidade.

       Ao fazer isto, a Igreja não fecha os olhos às dificuldades e aos dramas, que a experiência histórica concreta regista na vida das famílias. Mas ela também sabe que a vontade de Deus, aceite e realizada com todo o coração, não é uma cadeia que torna escravos, mas a condição de uma liberdade verdadeira que tem a sua plenitude no amor. A Igreja também sabe e a experiência quotidiana ensina-lho que quando este desígnio originário se obscurece nas consciências, a sociedade é danificada de modo incalculável.

       Sem dúvida, existem dificuldades. Mas Jesus não deixou de fornecer aos esposos os meios da graça adequados para as vencer. Por vontade sua, o matrimónio adquiriu, nos batizados, o valor e a força de um sinal sacramental, que consolida a sua índole e as prerrogativas. Com efeito, no matrimónio sacramental os cônjuges como farão daqui a pouco os jovens casais dos quais abençoarei o casamento empenham-se a exprimir-se reciprocamente e a testemunhar ao mundo o amor grande e indissolúvel com que Cristo ama a Igreja. É o "grande mistério", como lhe chama o apóstolo Paulo (cf. Ef 5, 32).

       "Que o Senhor, fonte de vida, vos abençoe!". A bênção de Deus está na origem não só da comunhão conjugal, mas também da responsável e generosa abertura à vida. Os filhos são verdadeiramente a "primavera da família e da sociedade".

       Nos filhos o matrimónio encontra o seu florescimento:  neles realiza-se o coroamento daquela partilha total de vida ("totius vitae consortium":  C.I.C., cân. 1055 1), que faz com que os esposos sejam "uma só carne"; e isto tanto nos filhos que nascem da relação natural entre os esposos, como nos que são adoptivos. Os filhos não são um "acessório" no projecto de uma vida conjugal. Não são um "acessório", mas um "dom preciosíssimo" (Gaudium et spes, 50), inscrito na própria estrutura da união conjugal.

       [...]Tomai como modelo a família de Nazaré que, apesar de lhe ter sido confiada uma missão incomparável, percorreu um caminho igual ao vosso, entre alegrias e tristezas, oração e trabalho, esperança e provações angustiantes, sempre enraizada na adesão à vontade de Deus. Sejam as vossas famílias, cada vez mais, verdadeiras "igrejas domésticas", das quais se eleve todos os dias o louvor a Deus e se irradie sobre a sociedade uma influência benéfica e regeneradora de amor.

       "Que o Senhor, fonte de vida, nos abençoe!". Oxalá este Jubileu das famílias constitua, para todos vós que o estais a viver, um grande momento de graça. Que ele seja também para a sociedade um convite a reflectir acerca do significado e do valor deste grande dom que é a família, construída segundo o coração de Deus.

       Maria, "Rainha da Família", vos acompanhe sempre com a sua mão materna.

 

Papa João Paulo II

15 de Outubro de 2000

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