Um Homem Radicalizado

December 14, 2015

 

       João Batista é um religioso radical, um religioso radicalizado, se diria hoje em dia. Eu o imagino desgrenhado e magro em seu deserto. Ele se alimentava de quase nada, de insetos e de mel silvestre. Certamente mais de insetos, grandes formigas e moscas, do que de mel silvestre. Ele fazia muito mais do que alguns “barbudos” que pretendem falar de Deus nos dias de hoje. Nosso João Batista tem qualquer coisa de contido, comedido, que me surpreende.  

 

As coisas devem mudar

       Como nós, João Batista é um vigia. Mas, ele não espera a vingança de Deus, ele não procura submeter o mundo à sua fé. Ele espera, simplesmente, a vinda do Messias da Paz, e procura se preparar humildemente. Nós também, nós esperamos. Não a vinda do Messias, mas, o seu retorno. Na primeira ou na segunda vinda, num caso como no outro, nós devemos nos preparar. O Messias irá tolerar o lixo mundial? A Paz de Deus é possível se soldados permanecem soldados? Os comerciantes podem continuar a traficar tantos inocentes?

       Preparar o caminho do Senhor como no tempo de João Batista, construir o projeto de Deus hoje em dia, é lutar até a morte, ou melhor, “até a vida”, até que a vida eterna siga, contra todos os traficantes de armas, de drogas e de humanos. Para nós, como para os contemporâneos de João Batista, a vinda dos últimos tempos exige grandes mudanças! Impossível vivermos o Advento seriamente sem mudarmos de direção, ou seja, nos voltarmos ao serviço humano e não ao poder e ao dinheiro.

 

Natal, festa voltada para o futuro 

       Muitos preparam o Natal como uma festa folclórica, retrógrada. Mas, eles nada compreenderam! Os cristãos não caminham para trás. Para nós, a história não é circular, mas, linear e irreversível. Como ela teve um começo, terá um fim! Nós lembramos a vinda do Messias porque esperamos sua vinda definitiva.

       O passado se apresenta a nós como trampolim, um impulso para o futuro, como a encarnação do Verbo Jesus de Nazaré é o ponto de entrada de todo o cosmo. A história terá um fim, uma concretização.  

 

Medida e respeito

       Em certa perspectiva, descobrir que João Batista é comedido, me faz tomar consciência, na cacofonia dos exaltados, que há na fé cristã um equilíbrio e uma moderação, um limite e um respeito sem igual. Diferente de todos os fundamentalistas contemporâneos, nossos fanáticos não são armados.

       Mesmo sendo João Batista filho de Zacarias, sacerdote de Jerusalém, ele nunca fala do templo e nem se interessa pelos sacrifícios de sangue. Sua pregação é um discurso social. Seu programa é comedido e não comete excessos: “Quem tem duas túnicas dê uma ao que não tem; e quem tem o que comer, faça o mesmo”. Aos coletores de impostos pede que se satisfaçam com o justo; aos soldados que se contentem com seu salário. Os mercadores permaneçam mercadores e os soldados permaneçam soldados! Este é um discurso realista, factível e humano.

       Muitos teriam dito aos soldados: Mudem de ofício, tornem-se menos violentos. E aos coletores de impostos: Entrem em dissidência, parem de trabalhar, tornem-se mendigos! Mas, João Batista sabe aceitar o outro como diferente. Tudo nele está no limite concedido. Ele não pretende transformar o mundo em um enorme convento!

 

Deus se acolhe, ele não se produz

       Preparai o caminho de Deus, isto é, prepara-se para acolher. João Batista limita o seu próprio campo de modo que o outro pode manifestar-se. "Ele deve crescer e eu diminuir". Ele desaparece como uma porta da frente, um desvanecer-se para apresentar alguém. Ele se enfraquece pelo jejum, preparando-se para receber (Mt 11, 18). João Batista é celibatário, mas, nele não há nada de menino velho! Ele deseja o outro, prepara sua vinda e respeita o que vem depois dele.

João Batista me impressionou por sua discrição. Não aprisionou o Messias. Ele não se imaginou seu empresário (Jo 3, 27-30). Não tem a pretensão de acelerar a vinda do Messias por sua pregação. O dom de Deus se acolhe, ele não se produz!

       Homem de desejo, João Batista permanece paciente. Ele é a voz que aponta o Verbo. É a lâmpada que anuncia o nascer do sol. Ele é o amigo que introduziu o Esposo. Nunca se confunde com aquele que ele anuncia e espera.

 

Assumir a condição humana

       Para resumir, eu diria que João Batista é aquele que aceita plenamente a condição humana. Ele não espera Deus vivendo de forma desumana. Ele vive no deserto, mas não é faquir. Ele leva uma vida perto da natureza, o homem ecológico, simplificado e humanizado. Com sua pele de camelo, seu mel silvestre e gafanhotos, há uma espécie de Adão primitivo, um grande inocente.

       Como Moisés, ele liderou seu povo para o deserto. Como Josué, ele atravessou o Jordão para entrar na terra prometida, perto de Jericó. Ele representa os símbolos pedagógicos do êxodo e da Páscoa, para levar o povo a um processo de conversão.

       João Batista possui duas intuições intimamente relacionadas: O Cristo não vem devido aos seus esforços e a reconciliação com Deus é um dom que se recebe. Ao contrário que se imagina os fariseus, a salvação não é um troféu de campeões da Lei, mas, puro dom da amizade oferecida aos grandes pecadores quando eles retornam humildemente a Deus.

 

O homem se faz Deus, mas, Deus se faz humano

       Por isso, insisto neste ponto, meus amigos, não creio que Cristo se manifestará como o resultado de nossa agitação. Nosso erro está em fazer demais e nossa hiperatividade nos serve como álibi para, até mesmo, não vermos o nosso vizinho mais próximo.

       Não importa se somos uma pálida figura neste mundo agitado: respeitemos os limites da nossa condição. Não temos de ser super-homens sempre incríveis! Ser limitado não é um pecado, esta é a condição da humanidade! Esta condição é para acolher um Deus que se fez homem!

       Como João Batista, devemos dar lugar para o outro, compartilhar o que temos e transformar nossas relações humanas, mesmo limitadas, em relacionamentos de amor. Assim seremos profetas. Não é nos fazendo Deus, mas, é nos tornando humanos que nós acolheremos a Deus que se fez homem (João 10: 31-39; 17, 21).

 

Autor: Frei Michel Van Aerde, op. Dominicano,

professor da Université Dominicaine Internationale.

Texto traduzido do Francês.

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