Criai em mim um coração que seja puro, dai-me de novo um Espírito decidido (Salmo 50, 12)



Estamos vivendo em um tempo de opressão, um assalto a cada dia, e nós nem conseguimos nos dar conta do que se passa ao nosso redor; são impostos aumentando, um governo cada vez mais desonesto, um Brasil que vai se perdendo cada vez mais, e, diante de tudo isso, passamos a viver a vida cada vez mais desanimados e sem esperança, a tal ponto que tudo vai se tornando comum.

Hoje, a pressão exagerada no trabalho é comum, o desemprego é comum, a destruição na família é comum. É uma bola de neve que se tornou comum. O problema é que esta “bola de neve” não pára de crescer e vai chegar a um ponto em que tudo será destruído.

A Igreja, por outro lado, vem em socorro de seu povo, e tem consciência de seu pastoreio para conosco. Por isso, diante deste tempo em que vivemos, a liturgia nos apresenta o tempo quaresmal. Poderia, aqui, falar de jejum, penitência, esmola e caridade, mas, diante disso tudo, os versículos do salmo 50 grita forte em nossos ouvidos, tornando-se, também, o nosso grito de socorro a Deus: “Criai em mim um coração que seja puro, dai-me de novo um Espírito decidido. ” (Sl 50, 12).

Um coração puro, é um coração centrado em Deus, um coração que tem um forte e intríseco desejo por Deus e pela felicidade. Na filosofia cristã, estudamos que Verdade e Felicidade andam sempre juntas, e que não tem como buscar uma, sem não ter a outra como companhia inseparável. Porém, apesar de querermos buscar a Verdade, começamos a trilhar outro caminho, que aparentemente, pode ser até um bom caminho, mas, quando o trilhamos, percebemos que estamos nos afastando da Felicidade. Este é o termômetro para sabermos se estamos no caminho certo, pois, Verdade e Felicidade andam juntas.

No processo de purificação do ouro, ele passa muitas vezes pelo fogo, sofre com o processo de purificação, mas, no final, ele se torna puro e valioso. Este é um caminho de Verdade rumo a Felicidade, que passa por sofrimentos, pela luta que o torna cada vez mais purificado. Então, quando rezamos este salmo, apesar de abrirmos o nosso coração para trilharmos o caminho da Verdade, também nos sujeitamos ao processo de purificação. Purificação das palavras, das amizades maldosas e inúteis, por mais que isto venha causar a dor da perda; nos purificamos dos vicíos das novelas, do cigarro e das farras, que mais levam para o buraco do que edificam; nos purificamos até daquele apego pelas coisas, mesmo que sejam boas coisas, mas, o apego às coisas não pode edificar. O processo de purificação é longo, requer muito mais do que quarenta dias, requer toda a vida, mas, acima de tudo, requer um início, e este é o tempo propício.

“Criai em mim um coração que seja puro”... após criar este coração novo e puro, o salmista continua... “dai-me de novo um Espírito decidido” (Sl 50, 12). Só com um Espírito decidido e determinado conseguiremos vencer os desafios da quaresma e perpetuarmos neste caminho da Verdade rumo a Felicidade. Santa Teresa de Jesus falava de uma determinada determinação, que era renovada a cada dia, onde, na oração diária, o Sim de cada dia era essencial, concluindo que, pior que um dia sem rezar, são dois dias sem oração. Por isso, é essencial pedirmos não só um coração puro da opressão do mundo, mas, um Espírito decidido em fazer a vontade de Deus.

Sendo assim, temos que estar vigilantes diante do que o mundo nos apresenta, diante do momento em que estamos vivendo. O desejo do mal é nos corromper, e se não pedirmos força a Deus, iremos ser destruídos por esta “bola de neve” que cresce por traz das cortinas da vida. Peçamos juntos, a Deus, com o salmista, neste tempo quaresmal: “Criai em mim um coração que seja puro, dai-me de novo um Espírito decidido.” (Sl 50, 12).


Leandro Perpétuo

Comunidade Amigos de Jesus

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