Todos são amigos em potencial


Muito mais do que um tema, a amizade faz parte da vida humana e para muitos é algo intrínseco, nato, próprio, visceral e até vital. Quando pensamos na palavra amizade, nestes tempos hodiernos, logo a associamos a área relacional, afetiva, emocional. Mas, nem sempre foi assim e a “amizade” teve um longo percurso na história para que pudéssemos compreende-la melhor. E mais, podemos ainda hoje não conseguirmos entende-la de forma completa e plena e ignorarmos todo o significado que ela possui dentro e fora do cristianismo e para o ser humano. Na Grécia clássica, Platão, apesar de não dar muita importância ao tema, o aborda em sua obra Lísis, que é um diálogo que ocupa-se com o conceito de phylia (amizade, amor). Influenciado por Protágoras, Platão desvincula a amizade de conceitos e leis físicas, o que gera em sua obra uma abordagem metafísica e não antropológica. Para Platão, a amizade é apenas um meio de se conseguir a sabedoria, o Bem. Não se importa de forma direta com o outro, mas, com o Bem que o outro possui. Por isso, vemos em sua obra palavras como desejo e ausência e não reciprocidade e lealdade. O Bem que está no outro é o que me atrai, é algo que não possuo. Por isso, a amizade em Platão é fundamentada pela atração que aquele que possui exerce sobre o que não possui. Apesar dessa limitação, podemos destacar alguns pontos positivos dentro da abordagem platônica sobre a amizade: Platão dá um novo sentido à palavra philos que, anteriormente, apresentava um sentido possessivo e não um sentido de acolhida e amor, como ele emprega. O parentesco (enraizamento) com o Bem é mais essencial do que o parentesco de sangue. Com isso, Platão universaliza a amizade e todos podem ser amigos em potencial. Por fim, podemos destacar que ele deu à amizade uma origem e uma finalidade transcendente o que não era possível até o momento.


Fernando S. Emerick

Fundador da Comunidade Amigos de Jesus

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