Teresa: Prova experiencial da amizade entre Deus e o homem

June 14, 2016

 

       Santa Teresa de Jesus provocou uma ruptura, não com o pensamento de alguém, mas, com o pensamento de seu tempo. Podemos dizer que a Espanha do século XVI tem um pensamento “aristotélico”, no que se refere a uma vivência de uma religiosidade que coloca uma grande distância entre Deus e o homem. As experiências místicas que Santa Teresa viveu só seriam possíveis para pessoas, homens, com um altíssimo grau de “santidade ascética”. Tal intimidade e amizade só poderia ser obra do demônio, assim diziam seus confessores.

       S. Teresa encontra seu refrigério no confessor dominicano Domingo Bañez que, talvez por sua formação tomista, a tenha compreendido e de certo modo pode tê-la ajudado a compreender melhor a oração como relação de amizade. Frei Domingo Bañez possui dentre suas principais obras, seus comentários escolásticos sobre a Summa Teológica. A própria santa o cita em Fundações:

       Chegando à pousada, soube que estava no lugar um frade dominicano, muito grande servo de Deus, com quem eu confessara quando estivera em São José. Como naquela fundação falei muito de sua virtude, aqui só direi o seu nome, mestre Domingo Bañez. Ele tem muitas letras e discrição, sendo aquele por cujo parecer eu me governava. Fundações 3,5.

       Por isso, talvez não seja uma mera coincidência o Papa Bento XVI em uma audiência geral sobre Santa Teresa, ter relacionado a definição de amizade dada por ela com a definição que São Tomás faz sobre a caridade:

       A santa destaca o quanto é essencial a oração. Orar, diz ela, “significa encontrar-se com amizade, já que encontramos cara a cara aquele que sabemos que nos ama” (Vida 8, 5). A ideia de Santa Teresa coincide com a definição de São Tomás de Aquino sobre a caridade teologal, como “amicitia quaedam hominis ad Deum”, um tipo de amizade do homem com Deus, que antes de tudo ofertou sua amizade ao homem; a iniciativa vem de Deus (cf. Summa Theologiae II-II, 23,1).          

       Com relação ao amor ao próximo, aqui também Teresa ilustra essa relação de perfeita ressonância com São Tomás. Teresa afirma que não se pode separar a amizade a Deus e a amizade ao próximo. Mas, para que esta premissa seja verdadeira ela entra em acordo com Aristóteles com relação a amizade entre semelhantes e com São Tomás com relação à Caridade. A semelhança se dá e o próximo é amado porque ele também é amigo de Deus:

       Por isso, eu aconselharia aos que têm oração que, especialmente no princípio, procurem ter amizade e relações com pessoas que se ocupem da mesma coisa.  Livro da Vida 7,20. 

        É importante ressaltar que Santa Teresa não tinha formação acadêmica e que sua sabedoria vinha da oração, da leitura de bons livros espirituais e do contato com seus confessores. Teresa também não é uma teórica, ela não propõe nenhuma tese. Apenas descreve, a mando de seus confessores, suas experiências de oração. Sendo assim, podemos dizer que Teresa é uma prova experiencial da amizade entre Deus e o homem, proposta pelo doutor angélico.

Fernando Emerick

Fundador da Comunidade Amigos de Jesus

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