O Espírito Santo e a Bíblia (Parte II)

O "ESPÍRITO DE JESUS" NO ANTIGO TESTAMENTO


A exegese ensina que a inspiração bíblica é a iluminação da mente do autor humano para que ele possa, com os dados de sua cultura religiosa e profana, transmitir uma mensagem fiel ao pensamento de Deus. Esta luz é o Espírito Santo que fortalece a vontade e as potências do autor sagrado. Se toda a Bíblia é palavra de Deus podemos concluir que o Espírito Santo permeia e conduz toda a narrativa da história da salvação. Como um ruach[1] de Deus que impulsiona a história gerando vida à medida que vai construindo um relacionamento de amor com o homem. Esta história tem uma evolução pois ela cresce em fatos e em consciência à medida que se aproxima o tempo previsto para a definitiva e derradeira redenção da humanidade.

A Bíblia como uma única palavra de Deus, nos remete ao próprio Cristo que é o Verbo de Deus. Logo, Jesus também se encontra presente em toda a Sagrada Escritura. De forma explícita no novo testamento e de forma velada, através das prefigurações, no antigo testamento. As pré-figurações não constituem simples associações teológicas de fatos ocorridos no antigo testamento com sua plena realização no novo. Elas podem se apresentar como um fio condutor da ação do Espírito Santo na história da salvação, formando um mosaico de eventos bíblicos que configuram a imagem de Cristo. Este mosaico ratifica as próprias palavras do Senhor: Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: antes que Abraão fosse, eu sou[2].

Com o objetivo de explicitar a estreita relação da ação do Espírito Santo em diferentes períodos do antigo testamento, com a presença velada e prefigurada de Jesus Cristo em todos estes ricos livros da antiga aliança, foram escolhidos para compor este mosaico alguns personagens e algumas narrativas bíblicas: O sacrifício de Issac, José do Egito, a serpente no deserto, Sansão, Jó e o profeta Isaías.

“Começando pelo começo”, Genesis 22 nos apresenta o sacrifício de Isaac. Abraão é provado por Deus que o pede que ele sacrifique seu único filho, o filho da promessa. Em obediência, Abraão segue resolutamente a cumprir o que lhe foi pedido até que o Anjo do Senhor o impede de levar a termo o sacrifício. Aqui, claramente a figura de Isaac é uma pré-figuração de Jesus Cristo, que não se poupou em obediência ao Pai e ao plano de salvação. Mas a cena do monte Moriá, nos reserva algo ainda mais impressionante: Abraão, levantando os olhos, viu atrás dele um cordeiro preso pelos chifres entre os espinhos; e, tomando-o, ofereceu-o em holocausto em lugar de seu filho.[3] Talvez mais do que Isaac, este cordeiro nos remeta ao mistério pascal de forma clara e crua.

Todos conhecem a história de José do Egito narrada a partir de Genesis 37. Um dos filhos de Jacó é invejado por seus irmãos, José é vendido por vinte ciclos de prata. Seu pai e seu irmão Rúben o tem como morto. Mas a Providência Divina o leva para o Egito e ele se torna um administrador do Faraó. Sobrevém uma grande fome sobre a terra e seus irmãos e toda a sua família são salvos por ele. A narrativa possui elementos riquíssimos muito similares à paixão do Senhor: A inveja dos irmãos, o despojamento de sua túnica, o sacrifício de um bode, os vinte ciclos de prata (Jesus foi vendido por trinta ciclos de prata), a morte aparente, e a salvação dos seus. José (ou o autor sagrado) tinha consciência da ação da Providência Divina em tudo que lhe aconteceu: Deus enviou-me adiante de vós para que subsista um resto de vossa raça na terra, e para vos conservar a vida por uma grande libertação.[4]

O livro dos Números é uma mescla de leis e a narrativa da caminhada do povo no deserto. E em uma destas narrativas no capítulo 21, após o povo falar contra Deus e contra Moisés, aparecem serpentes venenosas que provocaram muitas mortes. Moisés intercede pelo povo, e Deus manda Moisés fazer uma serpente abrasadora e colocá-la numa haste. E todos que contemplavam a serpente eram curados. Pode-se neste texto associar a figura intercessora de Moisés à mediação de Cristo junto ao Pai. Mas a serpente de bronze erguida numa haste é, sem dúvida, quase que um portal no tempo que nos leva a Cristo crucificado: E, como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do homem seja levantado; Para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.[5]

A temática do livro dos Juízes é pautada por um movimento cíclico: Israel vive um momento de infidelidade a Deus, isto gera uma opressão por parte dos seus inimigos, Deus suscita uma liderança em uma das tribos e esta liderança derrota o inimigo e se torna um Juiz. Este fato se repete algumas vezes gerando vários Juízes em Israel. Com certeza o mais conhecido dos Juízes é Sansão, cuja história, narrada do capítulo 13 ao 16, é bastante divulgada na sociedade contemporânea. Mas o que torna Sansão tão especial para nosso trabalho são as semelhanças de sua vida com a de Jesus.

Sua mãe, que era estéril, recebe a visita de um anjo que anuncia que ela terá um filho e este filho será um nazireu (um voto de consagração) desde o seu ventre. Mas a forma com que Sansão derrota os filisteus é o que o aproxima de Cristo. Capturado pelos inimigos por ter perdido sua força ao ter quebrado seu voto de consagração (Dalila cortou seus cabelos), Sansão invoca a Deus no templo dos filisteus: Sansão, porém, invocando o Senhor, disse: Senhor Javé, rogo-vos que vos lembreis de mim. Dai-me, ó Deus, ainda esta vez, força para vingar-me dos filisteus pela perda de meus olhos.[6] Sansão derruba as pilastras do templo e morre matando inúmeros filisteus. Sansão com sua morte, salva Israel da opressão do inimigo.

Apesar de Jó provavelmente não ser um personagem histórico e seu livro ser considerado um poema literário sapiencial, ele apresenta um marco no pensamento judeu. A tradição judaica sempre atribuiu a desgraça pessoal e familiar a um erro ou pecado cometido pela pessoa ou comunidade. O que deixa Jó em condição desfavorável diante de seus amigos. Jó perde todos os seus bens, sua família e sua saúde. Ele não culpa a Deus, mas alega inocência. Seus amigos o acusam de ter cometido algum mal e o livro se desenvolve no embate de Jó contra seus três amigos. No final, por Jó ter permanecido fiel a Deus, ele recebe todos os seus bens em dobro e uma grande descendência.

Eis o grande dilema do livro de Jó: Como pode alguém ter recebido tanto sofrimento sem ter cometido pecado algum? Jó só poderia ser culpado, pensavam seus amigos. O livro provavelmente foi escrito durante o exílio da Babilônia (587-538) fruto da reflexão dos sábios de Israel sobre o sofrimento. Esta literatura é de grande riqueza para o cristianismo pois fundamenta o sofrimento de Jesus, aquele que realmente existiu sem pecado, assumiu o pecado da humanidade e recebeu como prêmio uma descendência sem fim.

O profetismo em Israel sempre foi visto como um oráculo do Senhor, mesmo havendo aqueles que não acolhiam a profecia e nem o profeta, querendo sua eliminação. Mas o fato é que muitos profetas falaram, pela ação do Espírito Santo, em nome de Deus. A verdadeira profecia é aquela que se cumpre como Moisés que levou o povo para a terra prometida. Estes receberam o Espírito do Senhor. O ruach expressa a dimensão desta realização como Ezequiel nos ossos ressequidos (Ez 37, 1-14).

Quando entramos no mundo dos profetas de Israel encontramos um grande número de profecias messiânicas, o que resultaria em um mosaico só de profetas no presente trabalho. Mesmo se restringirmos em um só profeta como Isaías, ainda assim, teríamos um vasto campo messiânico para trabalhar. Isaías profetiza desde o nascimento de Jesus (“Portanto, o Senhor mesmo vos dará um sinal: eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho e lhe chamará Emanuel.)[7] até à sua paixão com os quatro cânticos do servo sofredor:

Verdadeiramente foi ele quem tomou sobre si as nossas enfermidades, e carregou com as nossas dores; e nós o reputávamos como aflito, ferido de Deus e oprimido. Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões, esmagado por causa das nossas iniquidades; o castigo que nos devia trazer a paz, caiu sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos nós sarados[8].

Abaixo segue um quadro comparativo que pode ser útil como síntese de todas estas passagens, narrativas e personagens bíblicos:


A intervenção divina é a ação do Espírito Santo, que conduz a história e mesmo sem tirar a liberdade do homem, introduz Jesus na história da salvação. Em todas estas citações anteriores e em inúmeras outras do antigo testamento, podemos dizer que Jesus está “presente em Espírito” ou o “Espírito de Jesus” está presente. Não como um elemento estranho que foi adicionado mas, como um ser constitutivo da história. Jesus é algo de empírico, intrínseco e por consequência, tão impossível de se dissociar dos acontecimentos que antecedem o seu nascimento, quanto o é do Espírito Santo. Não se encontra Jesus na antiga aliança como por acidente, porque ela existiu em função do plano salvífico que é o próprio Jesus Cristo.

Um outro ponto a ser evidenciado é a contínua presença de elementos que evocam a dimensão pascal do Senhor. O sacrifício e a redenção sempre estão presentes nas prefigurações. Isto porque, por um lado, fazem parte da condição humana; e por outro, o sofrimento, a morte e o recomeçar, também fazem parte do mistério salvífico. Um movimento que se renova até eclodir no derradeiro sacrifício do Cordeiro Santo.

Mesmo antes da sua encarnação, podemos afirmar através dos fatos bíblicos a profunda fusão existente entre o Espírito Santo e o “Espírito de Jesus” na história do povo hebreu. Tal evento nos permite concluir que na verdade, o Espírito Santo vai introduzindo e tecendo na história o “Espírito de Jesus”, com o objetivo de preparar a humanidade para a encarnação e páscoa do Senhor.


Fernando Emerick

Fundador da Comunidade Amigos de Jesus



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[1] Expressão Religiosa Hebraica que significa “Espírito Santo”. Essa expressão é encontrada em todo o Antigo Testamento, no texto original.

[2] Biblia Sagrada. Jn 8, 58.

[3] Ibid. Gn 22,13.

[4] Ibid. Gn 45, 7.

[5] Ibid. Jn 3,14-15.

[6] Ibid. Jg 16,28.

[7] Es 7,14.

[8] Es 53, 4-5.

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