O Espírito Santo e a Bíblia (Parte VII)

September 30, 2016

O “ESPÍRITO DE JESUS” É DERRAMADO

 

       E se Cristo não ressuscitou, logo é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé. [1] Esta afirmação de São Paulo em tom de ironia somente atesta a obra realizada. Jesus entrega o seu espírito ao Pai mas, o Espírito Santo não o abandona pois, a ressurreição de Cristo é obra da Santíssima Trindade.

       A ressurreição de Cristo é objecto de fé, na medida em que é uma intervenção transcendente do próprio Deus na criação e na história. Nela, as três pessoas divinas agem em conjunto e manifestam a sua originalidade própria: realizou-se pelo poder do Pai, que «ressuscitou» (cf. Act 2, 24) Cristo seu Filho, e assim introduziu de modo perfeito a sua humanidade – com o seu corpo – na Trindade. Jesus foi divinamente revelado «Filho de Deus em todo o seu poder, pela sua ressurreição de entre os mortos» (cf. Rm 1, 4). São Paulo insiste na manifestação do poder de Deus por obra do Espírito, que vivificou a humanidade morta de Jesus e a chamou ao estado glorioso de Senhor.

       A ressurreição de Jesus é a prova derradeira de sua divindade, é a prova de que o filho do carpinteiro realmente possuía o Espírito do Senhor. Ele não se encontra mais no sepulcro: Por que buscais o vivente entre os mortos? [2] Cristo vive pois, ele venceu o sofrimento e a morte.

        Jesus ressuscitado, antes de subir aos céus, se apresenta com seu corpo glorioso à muitos dos seus e em várias ocasiões, porém esta glória ainda continua velada até à sua ascensão. Vive um estado transitório, realizando feitos humanos e divinos muito peculiares: Jesus se alimenta, faz aparições e dá instruções sobre o reino. Não está mais no tempo, pois se tornou senhor dele: E, chegando-se Jesus, falou-lhes, dizendo: É-me dado todo o poder no céu e na terra. [3] Se outrora seu corpo estava, de certo modo, sujeito à ação do mal: E o diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. [4] Agora, seu corpo glorioso não está mais sujeito às tentações e sim à coroa da justiça: o Senhor, depois de lhes ter falado, foi recebido no céu, e assentou-se à direita de Deus. [5]

       Porém, o objetivo do mistério pascal não é a ressurreição de Jesus em sí. Jesus não quer se salvar pois, ele não necessita de salvação. O mistério pascal tem como sua vocação maior a redenção da humanidade. A humanidade sim, precisa ser redimida. Sendo assim, Jesus venceu a morte como primícias de todo o povo de Deus. O corpo de Cristo agora precisa, sob a graça de Deus, percorrer o mesmo caminho que Jesus percorreu. Se o homem tem que trilhar o caminho do Mestre, seria bom, como o Mestre, caminhar com o Espírito Santo. E Jesus sabe que só sob esta graça será possível, como Ele, vencer a morte: Eu vos mandarei o Prometido de meu Pai; entretanto, permanecei na cidade, até que sejais revestidos da força do alto.[6].

       O livro dos Atos refere a história da Igreja, que nasceu em Jerusalém e se propagou até Roma, ilustrando de certo modo os palavras do Senhor: Descerá sobre vós o Espírito Santo e vos dará força; e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e Samaria e até os confins do mundo.[7] Com outras palavras, tem-se a história da Igreja que passa dos judeus para os gentios, sob o impulso do Espírito Santo. Por isto Teofilacto dizia: Os evangelhos apresentam os feitos do Filho, ao passo que os Atos descrevem os feitos do Espírito Santo.

       O livro dos atos dos apóstolos narra a concretização da promessa com o derramamento do Espírito Santo sobre os discípulos reunidos no cenáculo:

       Chegando o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar. De repente, veio do céu um ruído, como se soprasse um vento impetuoso, e encheu toda a casa onde estavam sentados. Apareceu-lhes então uma espécie de línguas de fogo que se repartiram e pousaram sobre cada um deles. Ficaram todos cheios do Espírito Santo e começaram a falar em línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem.[8]

       Cinquenta dias depois da pascoa, os Judeus celebravam a festa da colheita (Ou a festa das semanas). Agradeciam a Deus pelo dom da terra, e também faziam memória à libertação do Egito. Agora, o dom que vem do céu, é o próprio Espírito Santo que vai conduzir o povo de Deus à pátria celeste.

       O que se vê após o pentecostes é a força da ação do Espírito Santo agindo através dos discípulos de Cristo. Se a Igreja peregrina é o corpo cuja a cabeça é Jesus (cf. Ef 5,23), podemos dizer por analogia que o Espírito Santo continua agindo como “Espírito de Jesus” na pessoa dos discípulos: De todos eles se apoderou o temor, pois pelos apóstolos foram feitos também muitos prodígios e milagres em Jerusalém e o temor estava em todos os corações.[9]

Fernando Emerick

Fundador da Com. Amigos de Jesus

 

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[1] Bíblia Sagrada. 1 Cor 15, 14.

[2] Ibid. Lc 24,5.

[3] Ibid. Mt 28, 18.

[4] Ibid. Lc 4,5.

[5] Ibid. Mc 16,19.

[6] Ibid. Lc 24, 49.

[7] Ibid. Ac 1, 8.

[8] Ibid. Ac 2, 1-4.

[9] Ibid. Ac 2, 43.

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