Matrimônio, um caminho de Santificação (Parte II)

November 30, 2016

DUPLO EXERCICIO DE RELAÇÃO DE AMIZADE

 

       Segundo São Tomás, o casamento como naturae officium, expressa a natureza humana da condição do homem. Assim, ele está destinado à procriação, à união e ao bem comum dos esposos. O sacramento do matrimônio, através da graça santificante, é destinado a aperfeiçoar o amor dos cônjuges. Eleva a dignidade humana colocando-a em função do mistério salvífico. A vocação à santidade que é comum a todo batizado, agora é vivida no casamento.

       Apesar do casamento pertencer ao fórum natural da criação, para onde a princípio todos são atraídos, ele requer um modo específico de ser vivido, estudado e contemplado, principalmente, nos dias atuais onde encontramos uma sociedade secularizada. Essa secularização reflete no “esvaziamento desse sacramento”. Em muitas culturas criou-se a ideia de que um relacionamento mais próximo com a Igreja ou com o sagrado de uma forma geral, pertenceria apenas à esfera do clero. Aos leigos caberia somente recorrer à Igreja para receberem os sacramentos da iniciação cristã e depois de alguns anos voltarem para contrair o matrimônio.

       Os elementos essenciais da caminhada cristã como o querigma, a catequese, a vida de oração, a vida sacramental e a missão, deveriam ser elementos constitutivos e centrais na vida de todo batizado. Um relacionamento autêntico e visceral com o Espírito Santo, aprofunda a amizade com Jesus e dá sentido à condição de sermos chamados de cristãos. São condições sine quibus non para todo cristão e não somente para quem trilha a vocação sacerdotal ou religiosa. Segundo a Lumen Gentium, todos somos um único povo de Deus. Assim, como um único povo, possuímos as mesmas necessidades materiais e espirituais. Caso contrário, estaremos correndo o risco de construir uma Igreja feita de castas.

       Portanto, o matrimônio possui igual dignidade com relação ao sacramento da ordem e às demais vocações, sendo portador de uma exigência evangélica que impele os cônjuges a trilharem os caminhos do Senhor, segundo as particularidades da vida conjugal. A vida de oração, a expressão da sexualidade, a ascese, a vida comunitária e o apostolado, também, fazem parte do universo familiar e por isso devem ser trabalhados de forma específica a contribuírem para a formação de santas famílias na Igreja.

Se queremos dar fundamentos sólidos para a teologia do casamento como caminho de santificação, é de fundamental importância explanarmos sobre o modo específico com que os cônjuges são chamados a trabalhar a oração em suas vidas. Santa Teresa de Jesus nos ensina que a oração é uma relação de amizade com Deus; É estar muitas vezes a sós com aquele que sabemos que nos ama. Nesse sentido, parafraseando Santa Teresa, a oração no casamento se apresenta como um duplo exercício de relacionamento: a oração entre os cônjuges e a oração dos cônjuges para com Deus.

       O primeiro é a união dos esposos, é estar juntos de corpo e de coração como sinal de união entre Cristo e a Igreja. O ato conjugal ou simplesmente um olhar de ternura, são orações destinadas aos próprios cônjuges, não como um ato idolátrico, mas, como uma celebração do amor humano ordenado em relação ao criador. Quanto mais conscientes e gratos da presença de Deus no exercício do amor humano dos esposos, mais a unidade do casal se configura de forma clara e limpa como uma oração. Essa era a realidade na vida de São Luís e Santa Zélia, pais de Santa Teresinha. Um santo casal que viveu o amor humano de forma plena:

 

       "Meu querido Luís,

       Quanto me tarda ver-me junto de ti, meu querido Luís! Amo-te de todo o meu coração e sinto que o meu afeto redobra com a privação de tua presença que tanto sinto; ser-me-ia impossível viver apartada de ti...regressamos na quarta-feira à tarde, às sete e meia. Como me parece distante! Beijo-te com muito amor."

 

       “Querida amiga, só poderei chegar a Alençon na segunda-feira. O tempo me parece longo, está demorando para voltar a vê-la... Seu marido e verdadeiro amigo que a ama por toda a vida! ” 

 

       A espiritualidade do casamento requer, acima de tudo, a vivência de um amor humano. E o amor humano não comporta a ausência. Luís e Zélia eram apaixonados e a ausência do amado causava sofrimento. Nesse sentido, o respeito mútuo, a ternura entre os esposos, a misericórdia e a compaixão, são pressupostos que contribuem, animam e preparam os corações do homem e da mulher para acolherem um ao outro e caminharem para a perfeição humana.

       O segundo exercício é a oração dos cônjuges para com Deus. Quando um casal se conhece, na maioria das vezes, são atraídos pela beleza corporal, pela admiração intelectual ou mesmo por algum interesse pessoal que não seja nobre.  Nessa fase inicial de relacionamento, temos presente o que Aristóteles define como a amizade útil e a prazerosa. Um desenvolvimento natural e sadio desse relacionamento deverá levá-los para a amizade virtuosa.

       Nessa perspectiva, o casal irá conseguir atingir um nível de relacionamento que possa ser um verdadeiro sinal eficaz, se e somente se, cada um deles buscar a amizade com Deus. Aplica-se aqui, facilmente, o pensamento de S. Tomás com relação ao amor o próximo. O próximo é amado porque ele é amigo de Deus. Durante uma vida inteira juntos, logicamente, estão presentes o amor útil e o prazeroso. É o aspecto unitivo do casamento. O companheirismo e a vida sexual fazem parte desse processo. Porém, não são suficientes para fazer perpetuar uma relação. Tem que existir um ponto convergente maior, e esse ponto é a amizade que cada um possui com Deus.

       Na mesma carta citada anteriormente, Santa Zélia relata para São Luís sua atividade matinal:  Esta manhã assisti a três missas. Fui às das seis, fiz a ação de graças e rezei as minhas orações durante a das sete, e voltei à missa cantada. Também São Luís era um homem piedoso, de comunhão diária e peregrinações. O amor conjugal não dispensa a relação esponsal dos esposos para com Deus, ao contrário, o sacramento do matrimônio exige o sagrado também na forma transcendente.

       Esses duplos exercícios de relacionamento de amizade não são antagônicos e sim complementares. Em verdade, na espiritualidade conjugal eles se misturam. Ao contemplar Deus no cônjuge, ama-se mais a Deus e ama-se mais o cônjuge. Ao exercer o aspecto unitivo, os esposos são abençoados por Deus que se alegra com o amor que existe entre suas criaturas. Essa graça, quando acolhida, reverte-se em uma via virtuosa e também em ação de graças, fortificando e aprofundando a amizade dos esposos para com Deus. Desencadeia-se um círculo virtuoso entre criador e criaturas, entre Cristo e os esposos.  Esse círculo virtuoso irá culminar na “construção” de almas nobres. Casais, que apesar de ainda não terem atingido a perfeição humana, amam-se a ponto de se abrirem à vida.

 

Fernando Emerick

Fundador da Comunidade Amigos de Jesus

 

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