Matrimônio, um caminho de santificação (Parte III)

January 2, 2017

O SOFRIMENTO NO CASAMENTO

 

 

 

       Da mesma forma que o casamento faz parte da ordem natural do ser humano, assim também é o sofrimento.  Ele é intrínseco da condição limitada do homem. Entra no mundo através da desobediência de um casal, Adão e Eva, mas, em Cristo ele é redimido e pode ser usado como matéria prima para a santificação.

 

       Pode-se dizer que com a paixão de Cristo todo o sofrimento humano veio a encontrar-se numa nova situação. Parece mesmo que Job a tinha pressentido, quando dizia: “Eu sei que o meu Redentor está vivo...”, (54) e que para ela tivesse orientado o seu próprio sofrimento que, sem a Redenção, não teria podido revelar-lhe a plenitude do seu significado. Na Cruz de Cristo, não só se realizou a Redenção através do sofrimento, mas também o próprio sofrimento humano foi redimido. 19,2 SALVIFICI DOLORIS. 

 

       Essa realidade do sofrimento não é ausente na vida familiar. A felicidade da vida conjugal não os priva da cruz do sofrimento humano. A fome, o desemprego, as guerras, a infidelidade e a morte são alguns dos inúmeros tipos de sofrimento que atingem o casal. Diante desse fato, como podemos viver o sofrimento dentro da espiritualidade conjugal?

       Todo cristão é convidado a unir a sua dor ao sofrimento de Cristo, porém, o casal tem a graça e o dever de vivenciá-lo dentro da amizade virtuosa que os contempla. Os cônjuges devem ser cúmplices. Juntos e harmoniosamente devem abraçar a cruz de Nosso Senhor. O sofrimento deve ser usado para estreitar, amadurecer e fortalecer o relacionamento conjugal. Mais do que sofrer juntos, o sacramento do matrimônio exige que um alivie a dor do outro. Aqui cabe novamente a citação de Jo 15,13: Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos.

       Abaixo segue mais uma carta de Santa Zélia endereçada a São Luís seu esposo. Nela, Zélia tenta acalmá-lo diante da notícia de que seu câncer de mama está em um estágio avançado. Em uma santa resignação ela se entrega nas mãos do Senhor e quer ser consolada pela presença do esposo:

 

       O médico acha que foi uma grande pena não ter feito a operação no princípio, mas, que agora é tarde demais. Contudo dá-me a impressão de que posso viver ainda muito tempo mesmo assim. Por isso entreguemo-nos nas mãos do Nosso Senhor que sabe bem melhor do que nós o que nos é necessário: “Ele é que abriu a chaga, ele é que a cura”. Na primeira peregrinação vou a Lourdes e espero que Nossa Senhora há de curar-me, se for necessário. Entretanto, sosseguemos. Sinto uma grande alegria por vos ir tornar a ver. O tempo parece-me tão comprido! Tanto queria ter voltado hoje! Só contigo é que estou bem, meu querido Luís.

 

       Luís e Zélia são um exemplo louvável de uma vida conjugal que soube passar pelo sofrimento em Cristo Jesus. Tiveram quatro filhos falecidos, sofreram com a guerra franco-prussiana, Zélia morre devido a um câncer de mama e Luís passa três anos de sua vida em um hospital psiquiátrico e posteriormente morre com arteriosclerose. No entanto, em todas essas provações deram um lindo testemunho de confiança na Providência Divina e de unidade conjugal.

       A grande dificuldade da vida matrimonial nos dias atuais está na falta de capacidade dos cônjuges em saber sofrer e principalmente em saber sofrer juntos, em comunhão. Muitas das crises conjugais são provenientes do sofrimento familiar que não é vivenciado na graça e na sabedoria de Deus. A acusação mútua, a indiferença e a intolerância são situações muito comuns na vida de muitos casais quando os sobrevém o sofrimento.

       Vivemos em uma sociedade que não suporta o sofrimento e por isso busca qualquer meio para evitá-lo. Se uma gestação é “inconveniente” basta eliminar o feto, se entramos em uma crise conjugal basta se divorciar, e assim agimos nas diversas situações da vida. Porém, agindo por evitar o sofrimento a qualquer custo se acaba por transformar um sofrimento em outro. E em muitos casos, esse novo sofrimento é fruto do pecado. Não entramos no mérito daquele determinado sofrimento. O caminho de santificação não busca o sofrimento como se fosse algo de bom, mas, busca compreende-lo à luz de cristo para que juntos o casal possa colher bons frutos.

 

Fernando Emerick

Fundador da Comunidade Amigos de Jesus

 

<< PARTE II         PARTE IV >>

Please reload

                  ARTIGOS                 

Matrimônio, Fruto da História da Salvação (Parte III)

May 6, 2019

1/4
Please reload

Please reload