O Mistério Divino e Humano da Maternidade (Parte II)

Para compreendermos a maternidade no plano Divino e Humano faz-se necessário abordar primeiramente o conceito de maternidade dirigindo-nos à pessoa de Deus Pai. Verificamos nas Sagradas Escrituras, na Tradição e na Mística, atribuições que sugerem que a verdadeira maternidade está contida no próprio Deus. No Antigo Testamento o profeta Isaias apresenta esse amor de mãe presente na pessoa de Deus quando nos diz: “Como alguém a quem consola sua mãe, assim eu vos consolarei; e em Jerusalém sereis consolados” (Is 63,13). De fato Deus com seu amor maternal não desiste do seu povo. Ele se compadece de seus sofrimentos e deseja conduzi-lo pelo caminho da salvação, por isso envia Jesus com a finalidade de reunir os seus filhos dispersos. No Novo Testamento, Jesus volta a falar afetuosamente sobre esse desejo de estar com o seu povo quando afirma: “Quantas vezes Eu quis reunir os teus filhos, como a galinha acolhe os seus pintinhos debaixo das suas asas, mas vós não o aceitastes”! (Mt 23,37) A comparação com a galinha que reúne os pintinhos debaixo das asas demonstra a grandeza do amor e da ternura de Jesus pelo povo da Nova Aliança. São Tomás de Aquino, em sua reflexão ontológica a respeito de Deus, elimina a concepção de gênero presente na escritura e busca explicar a relação do “ser” de Deus e a sua ação com a humanidade. Para ele, pensar em Deus a partir de categorias terrenas seria deformar a própria identidade divina, para ele interessa a substância, a essência do ser de Deus, e a concepção de gênero não explica o ser, mas, somente o modo de ser. Assim ele afirma: “Tem-se, pelo gênero, o que a coisa é, mas não aquilo pelo que ela existe, porque a coisa só pode ser posta no próprio ser após ter sido determinada pela diferença. Ora, sendo Deus o seu próprio ser, fica impossibilitado de ser gênero” (São Tomás de Aquino).


Sabemos o que Deus é, pois, aprendemos nas escrituras: “Deus é amor. E todo aquele que permanece no amor permanece em Deus” (1Jo 4,16). Portanto, fazer a experiência do amor de Deus é condição essencial para reconhecermos nele o seu caráter maternal. A verdade é que o amor que vem de Deus é infinitamente maior, do que tudo o que se experimenta de sentimentos em relação a uma pessoa. Porém, o que mais se aproxima do amor de Deus é o relacionamento de uma mãe com o seu filho. Como uma mãe recebe o seu filho em qualquer circunstâncias e o ama incondicionalmente, assim Deus também nos ama. Ele não faz distinção de seus filhos para amar, o amor de Deus é incondicional, ele ama simplesmente porque está na sua essência. O amor define a sua pessoa, é próprio de Deus amar. Como uma mãe que segue amando o seu filho por toda a vida com a mesma intensidade, assim é o amor de Deus. Ele é imutável porque permanece o mesmo desde sempre, seu amor não é sujeito de mudança. O seu amor é estável, nada pode alterar a sua capacidade de amar. Mesmo que a criatura faça de tudo para desmerecer esse amor, Deus permanece amando na mesma intensidade. O amor de Deus é eterno, infinito e substancial. Deus decidiu nos amar sempre e para sempre. Nunca houve tempo quando Deus não amasse seu povo, e nunca haverá tal dia. As sagradas escrituras nos dá a garantia desse amor maternal de Deus quando nos fala: “Ora, Yahweh me abandonou, o Eterno me desamparou! Haverá mãe que possa esquecer seu bebê que ainda mama e não ter compaixão do filho que gerou? Contudo, ainda que ela se esquecesse, Eu jamais me esquecerei de ti”! (Is 49,14-15) Deus nos envolve no seu amor como uma mãe que embala o seu filho nos braços. Sendo assim somos impulsionados a olhar a Maternidade sobre a ótica de Deus-Mãe. A criação da humanidade revela o cuidado amoroso de Deus. A humanidade foi sonhada e gerada nesse útero de Deus que se fez mãe. É o próprio Deus, que no seu poder criador, cria todo o ser vivente. E ele quis criar o homem à sua imagem e semelhança “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” (Gen 1,26). Tal criação designada para ser segundo o plano amoroso de Deus teria felicidade plena se não houvesse sofrido o distanciamento do seu criador, e o seu rompimento com ele, através do pecado. Porém, é o mesmo Deus, que ama com amor de mãe e que recria o velho homem Adão, e nos envia o Cristo o novo Adão para salvar a humanidade de seus pecados. Em Cristo compreendemos novamente a maternidade divina, uma vez que pela sua paixão e morte podemos experimentar um novo nascimento pelo seu sangue derramado na cruz. Jesus morre para o pecado para que o mesmo morra em nós. É Cristo que, oferecendo-se como vítima perfeita de expiação pelos nossos pecados nos reconcilia com Deus e nos devolve a dignidade filial. Podemos, assim, dizer que nascemos de novo. É possível recordar Nicodemos, que era uma autoridade entre os judeus, ele era mestre e doutor da lei e conhecedor exímio da Torá. Podemos encontrar nas escrituras o episódio que narra o encontro de Nicodemos com Jesus. Ele aproximou-se de Jesus, cheio de dúvidas quanto aos seus ensinamentos, mas, é instigado pelo Mestre a ter que nascer de novo para ver o Reino de Deus. Nicodemos não entende o que significa nascer de novo, mas Jesus explica que há o nascimento da carne e do espírito, e através deste último podemos entrar no Reino de Deus (cf. Jo 3,2-5). Compreendemos bem que o nascimento para uma vida nova, não acompanhava o raciocínio de Nicodemos que questionou se era possível voltar ao ventre materno para nascer de novo. Jesus apontava para o novo nascimento que se daria pela sua morte e ressurreição. Aquele que nasce de Cristo é uma nova criatura (cf. 2Cor 5,17). Ora se pela morte e ressurreição nascemos com Cristo e por ele para uma vida nova, logo, podemos, afirmar que em Cristo experimentamos novamente a maternidade. Agora a Maternidade na Redenção, pela qual fomos reconciliados com Deus. Segundo Juliana de Norwich a cruz torna-se assim o símbolo desse novo nascimento nela morre o homem velho e nasce o homem novo, ela assim afirma: Oh, o que é isso? Senão a nossa verdadeira Mãe Jesus, ele carrega-nos para a alegria e vida eterna, bendito seja. Ele carrega-nos dentro de si no amor de um trabalho de parto, até o final quando ele desejou sofrer as maiores dores e cruéis espinhos que existiram ou existirão, e no final ele morreu (Juliana de Norwich). Podemos compreender que pela cruz de Cristo tudo se torna novo, ela agora não somente é, sinal redentor e salvífico do homem, mas também, o novo útero onde toda a humanidade é gerada e nasce para uma vida nova.

Kelly Emerick

Fundadora da Com. Amigos de Jesus

VER INTRODUÇÃO VER PARTE III

                  ARTIGOS