O Mistério Divino e Humano da Maternidade (Parte III)

Toda essa correlação da maternidade, tendo em vista as pessoas de Deus Pai e Deus Filho, não é muito simples de assimilar, uma vez que em ambos reconhecemos a figura masculina. É mais comum reconhecermos Deus como Pai e Jesus como o verbo encarnado feito homem. Mas Deus, na sua pedagogia de amor quis nos permitir compreender o sentido da sua maternidade nos apresentando uma figura feminina. Ele nos deu a pessoa de Maria para que assimilássemos, mais perfeitamente, o sentido da maternidade. Flores, na sua dissertação sobre a Maternidade de Deus em Juliana de Norwich, permite­-nos uma maior compreensão quando nos diz:

Uma vez utilizada à metáfora kenótica, em que Jesus se despe de sua natureza e encarna no ventre de Maria, vestindo-se de nossa carne (natureza), agora ela inverte a realidade inserindo-nos no contexto da divina gestação da nova humanidade. Jesus nos envolve, sustenta e nos possui, em seu divino amor. É a infinita bondade amorosa de Jesus, que permite que toda a humanidade esteja envolta em seu ventre de amor para ser concebida na graça (J.S. Flores).

Deus escolheu Maria para manifestar o seu amor pela humanidade. Nela o Deus se encarna na pessoa do seu filho Jesus e graças a essa encarnação podemos compreender a maternidade divina representada na pessoa de Maria. Baseado nesse fato é que Maurice Zundel afirma: “no coração de Maria, nasce toda a Maternidade de Deus”. Ele escolheu Maria para ser o seu rosto feminino. Maria nos revela Deus no feminino, ela nos revela a maternidade de Deus.

A Maternidade divina de Maria é o dogma da Igreja segundo o qual Nossa Senhora é verdadeira Mãe de Deus, por haver concebido a Jesus Cristo por obra do Espírito Santo e por ter dado à luz ao Filho de Deus: “Maria é chamada pelo anjo de a “cheia de graça”, porque a Encarnação do Verbo, a união hipostática do Filho de Deus com a natureza humana se realiza e se consuma precisamente em Maria” (Carta Encíclica Redemptoris Mater).

É, também, em Maria que compreendemos não somente o aspecto divino da maternidade, mas, também a dimensão humana. Ela, que se encontra no centro do evento salvífico, representa a perfeita união entre Deus e a humanidade. No momento da Anunciação, respondendo com o seu Fiat, Maria concebeu um homem que era Filho de Deus, consubstancial ao Pai. Portanto, é verdadeiramente a Mãe de Deus, uma vez que a maternidade diz respeito à pessoa inteira. Por isso, Maria tornou-se não só a mãe-nutriz do Filho do homem, mas, também a cooperadora generosa, de modo absolutamente singular, do Messias e Redentor. Deste modo o nome Theotókos — Mãe de Deus — tornou-se o nome próprio da união com Deus, concedida à Virgem Maria.

Podemos perceber que por três vezes a maternidade de Maria é confirmada na história da salvação. A primeira delas aconteceu na Anunciação do Anjo quando ela recebe de Deus a nobre missão de gerar o Messias: “Eis que conceberás e darás a luz a um filho e o chamarás com o nome de Jesus” (Luc 1,31). Impressiona-nos como Deus respeitou a liberdade de Maria. Não lhe impôs a maternidade divina. Chamou-a, mas lhe pediu o consentimento. Elegeu-a desde antes da criação do mundo, ornou-a com todas as bênçãos e graças, mas, aguardou seu sim, sua disponibilidade.

A segunda acontece aos pés da cruz, quando o próprio Cristo oferece a sua mãe como mãe da humanidade: “Mulher eis aí o teu filho, filho eis a tua mãe” (Jo 19,26-27). O Papa João Paulo II tão bem definiu o momento de Maria aos pés da Cruz, dizendo: “Na anunciação, Maria dá no seu seio a natureza humana ao filho de Deus; aos pés da Cruz, em João, recebe no seu coração toda a humanidade. Mãe de Deus desde o primeiro instante da encarnação, ela torna-se mãe dos homens nos últimos momentos da vida do Filho, Jesus” (Papa João Paulo II).

E, pela terceira vez, no Cenáculo no dia de Pentecostes: “Todos eles perseveravam unanimemente na oração, juntamente com as mulheres, entre elas Maria, mãe de Jesus, e os irmãos dele” (At.1,14). Maria estava presente no Pentecostes e ali nasce a Igreja. Maria, como esposa do Espírito Santo configura-se como Mãe do Corpo Místico de Cristo, tornando-a indissoluvelmente unida ao mistério de Cristo pela Encarnação e à Igreja.

A presença de Maria na História da Salvação marca um novo tempo na vida de toda Igreja. Nela, o Filho de Deus assume a nossa humanidade restabelecendo a comunhão entre o Pai e nós. Feito filho de mulher, Jesus assume a nossa natureza humana para que pudéssemos receber a filiação adotiva. Junto de Jesus, Maria cooperou e continua a cooperar no seu projeto de salvação na história. O seu modelo singular de mãe torna-se um exemplo incomparável a ser seguido por todas as mulheres de todas as gerações vindouras.

Kelly Emerick

Fundadora da Com. Amigos de Jesus

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