Meditação do 16º domingo do Tempo Comum

July 22, 2018

       Poderíamos dizer que o Evangelho de hoje nos propõe um episódio “desconfortável”. É desconfortável, em primeiro lugar, para os discípulos que voltam, aparentemente cansados, da sua missão e que, apesar do convite de Jesus para se repousarem um pouco, são assediados por inúmeras pessoas.

       Mas este episódio é igualmente “desconfortável” de se compreender: como conciliar as necessidades dos discípulos e as das pessoas em volta? O porquê de Jesus oferecer um tempo de intimidade aos seus, mas, logo a seguir, nada fazer para os afastar, para se afastar do assédio da multidão? Como pôr, lado a lado, estas duas realidades?

       Se escutarmos bem, percebemos que, na realidade, ambas dizem respeito de muito perto à nossa própria vida, às nossas necessidades e aos nossos desejos. Com efeito, elas conduzem-nos ao desejo de Senhor, à necessidade nunca satisfeita de ficar junto dele. Esta necessidade deve-se necessariamente abrir-se à outra. Não existe um verdadeiro encontro com o Senhor que não dê ainda mais lugar às necessidades do irmão.

       Assim, Jesus acolhe os seus que voltam de uma missão; acolhe-os convidando-os para um momento de intimidade. Para caracterizar esse momento, São Marcos utiliza duas expressões.

       A primeira é “à parte” (Marcos 6,31). É um termo que, em Marcos, aparece várias vezes: quando Jesus explica aos seus o sentido das parábolas (4.34), quando leva Pedro, Tiago e João ao Monte Tabor (9,2) quando os seus lhe querem fazer perguntas importantes que não querem fazer diante de todos (9,28; 13,3). É assim, no seio de uma relação pessoal e íntima, que liga Jesus aos seus, que aparece a expressão “à parte”. É um espaço no qual a amizade se alimenta e se aprofunda, um espaço de escuta e de partilha, um espaço de reconhecimento recíproco. A expressão “à parte” está também ligada a uma experiência de revelação que o Senhor faz de si próprio aos discípulos.

 

       O segundo termo é “deserto” (Marcos 6,31). O espaço “à parte” para onde Jesus leva os seus discípulos é um ermo, um “deserto”, um lugar de solidão. No entanto o deserto nunca foi para ninguém um local de relaxamento. É mais o lugar de luta, de sede, de fome, da tentação e do caminho. É um lugar que Deus escolhe para que o seu povo aprenda a difícil arte da confiança e da partilha.

       Mas o que hoje pode surpreender é que este lugar deserto e à parte não é um lugar isolado ao ponto de ser inacessível. É exatamente o contrário. É o lugar em que é mais fácil para todos se encontrarem com Jesus e os seus discípulos, a tal ponto que este (e é a única vez em Marcos) em que a multidão chega antes deles (6,33). As pessoas sabem que os vão poder encontrar lá, nesse lugar isolado e à parte.

       Não se vai para o deserto, para um lugar à parte, para se relaxar, mas para se se abrir a uma sede e a uma fome mais profunda. E é esta experiência que dá sentido, vigor e força à vida. Esta experiência tem um nome; compaixão (6,34).

       Assim, nós compreendemos que o desejo de Jesus de estar com os seus é verdadeiro. Assim como é verdadeira a intuição de Jesus que queria para uns seus um tempo de tranquilidade.

Mas é também verdade que Jesus sabe bem que este desejo não se pode cumprir sem deixar lugar a uma multidão e à sua fome. Só isto pode, na verdade, dar repouso.

Toda a fuga à realidade e ao outro não é, assim, uma fonte de repouso, mas ao contrário, uma ocasião de fatiga, de enervamento, de frustração. Devemos perceber quantas das nossas fatigas estão ligadas a uma procura de repouso que não é evangélica e a uma procura do Senhor que não é a correta.

       A luta que os discípulos são chamados a travar no deserto é exatamente esta passagem, esta abertura de espaço a dar ao Senhor que não é propriedade deles. Devem aprender a partilhar a paixão que o Senhor tem pelo homem.

       E a revelação ligada a estar “à parte” diz mais respeito à missão dos discípulos do que ao Senhor: eles partiram e voltaram. Mas a sua volta não significa que a sua missão esteja acabada, nem mesmo que eles possam gozar de uma pausa. Porque a fome do homem não conhece nenhuma pausa, assim como o desejo de Deus que o seu Reino venha não tem descanso.

 

D. Pierbattista Pizzaballa

Arcebispo de Jerusalém

Fonte: https://www.lpj.org/meditacao-pizzaballa-16-domingo-b/?lang=pt-pt

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