Meditação do 22º Domingo do Tempo Comum

September 2, 2018

       Neste domingo retomamos a leitura do Evangelho segundo São Marcos.

       A passagem de hoje é como uma fronteira. Com efeito encontra-se entre duas multiplicações dos pães. E imediatamente depois do nosso texto, Jesus irá sair das fronteiras de Israel e dirigir-se-á para uma terra pagã, uma terra “impura” e é exactamente para estes, para os pagãos, que tem lugar a segunda multiplicação dos pães.

       O texto evangélico de hoje parece preparar-nos para esta passagem. E fá-lo dirigindo-nos uma pergunta: Quem é impuro? O que nos afasta de Deus?  Esta ocasião apresenta-se a Jesus através de uma pergunta posta pelos fariseus e pelos escribas. Estes vêm de Jerusalém, ou seja, do lugar santo por excelência. Estes homens, guardiães da tradição e da Lei, estão escandalizados diante da pouca observância das prescrições rituais por parte dos discípulos de Jesus. Por isso, eles exigem uma explicação deste comportamento. (Marcos 7,5).

       Para eles, a fronteira entre o puro e o impuro parece clara e evidente. É puro aquele que observa escrupulosamente as regras e os preceitos ditados pelos pais. Um critério como este tem uma enorme vantagem: Havia um critério externo, claro e facilmente verificável para se estabelecer quem era justo ou não. E este critério consistia exactamente na observância das leis e preceitos dos pais.

       Ao contrário, Jesus leva o seu auditório para um outro critério. Ele quer conduzir os que O ouvem para um outro nível que, na verdade, se encontrava já na intenção das antigas leis, mas que tinha sido esquecido. A intenção das leis de uma pureza exterior, para além do papel social importante, tinha como objectivo de lembrar ao crente a necessidade da pureza de coração. E é esta a mensagem da passagem do Evangelho de hoje.

       Jesus faz uma distinção entre tradições e mandamentos. As prescrições vêm do homem, os mandamentos de Deus. A observância destas prescrições pode ser adaptada e medida, a obediência aos mandamentos não.

       Os mandamentos põem-nos no caminho, tornam-nos livres, as prescrições como fins nelas próprias dão uma certa segurança e podem-nos fazer cair numa certa presunção de sermos nós próprios a fazê-las. Os mandamentos põem-nos no caminho, tornam-nos livres e abrem-nos a Deus.

       No fim, o mandamento vem tocar o coração do homem e as suas profundas meditações enquanto as prescrições ficam à superfície.

       O risco é o de observar uma grande quantidade de preceitos e pensarem que assim estão próximos de Deus.

       No fim, o mandamento vem tocar o coração do homem e as suas profundas motivações e assim ele está próximo de Deus. O perigo seria que então não se dessem conta que o coração está longe, como diz Jesus citando o profeta Isaías (Marco 7,6-7).

       As tradições humanas podem tornar-se desculpas para evitar observar o único mandamento capaz de dar a plenitude à vida do homem. O mandamento do amor. Mas há algo de mais: dando ao homem a ilusão de ser justo, as tradições humanas podem-no impedir de olhar o seu próprio coração e de ver que é do mais profundo do seu coração vem o mal.

       E é sobre este ponto preciso a que se refere o segundo ensinamento de Jesus: para dizer que o coração do homem – de todos os homens sem distinção – está sujeito a todas as possibilidades do mal. Não é o que é exterior que nos leva ao pecado, mas que, bem no interior de nós, há uma certa inclinação para o egoísmo. A fronteira entre puro e impuro reside aí, e é por esta razão que um culto exterior não é suficiente, como não é suficiente o respeito pelas observâncias para aproximar este coração do Senhor.  Como muitas vezes acontece no Evangelho de Marcos, Jesus não diz como o coração pode ser curado, que terapia seria necessária para recuperar a saúde.

       Isto pode, sem dúvida, ser explicado. O primeiro passo para a cura é o de se reconhecer que se está doente, sem se iludir sobre o facto de que os gestos exteriores não são suficientes para curar o coração: a cura tem de ser mais profunda.

       Mas é somente esta consciência que prepara o coração para acolher a passagem que Jesus fará imediatamente a seguir, na terra pagã. Trata-se de acolher a graça da salvação que me toca lá, onde eu, o primeiro e não os outros, sou impuro e pagão. Temos de aceitar que o Senhor vem ter connosco às nossas fronteiras, e em primeiro lugar às minhas próprias fronteiras, aos meus afastamentos de Deus. Pois é assim que o Reino se faz verdadeiramente próximo (Marcos 1,15).

       É assim que chega a passagem que cura o nosso coração Temos de passar da observância à obediência Com efeito, se a observância de certos preceitos não possui o poder de nos libertar de nós mesmos e da solidão que nos fecha – e é isto que torna o nosso coração doente – a obediência, pelo contrário, põe-nos numa relação com Aquele que tem a vida e que no-la quer dar. É a escolha de viver da graça, de nos alimentarmos deste pão, no qual tanto insistimos nos precedentes domingos, que nos coloca no centro do círculo virtuoso da caridade, que é a verdadeira e única cura para o coração do homem.

 

Dom Pierbattista Pizzaballa

Arcebispo de Jerusalém

Fonte: https://www.lpj.org/meditacao-de-mons-pizzaballa-xxii-domingo-do-tempo-comum-ano-b/?lang=pt-pt

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