Família Martin, exemplo e modelo para as famílias modernas (Parte VII)

December 3, 2018

FAMÍLIA MARTIN:

Vida familiar e trabalho

 

       Conciliar o trabalho em casa e fora, é um dos maiores desafios que as famílias modernas encontram. O individualismo tem entrado profundamente nos lares, afetando o diálogo entre pais e filhos, que desvirtua os laços familiares e acaba por considerar cada componente da família como uma ilha, segundo a Exortação Amoris Laetitia:

       [...] “os pais chegam em casa cansados e sem vontade de conversar; em muitas famílias, já não há sequer o hábito de comerem juntos, e cresce uma grande variedade de ofertas de distração, para além da dependência da televisão. Isto torna difícil a transmissão da fé de pais para filhos.”[1]

       Luís era relojoeiro e com sua honestidade e o seu talento, conseguiu formar uma clientela fiel. Zélia especializou-se no “ponto de Aleçon”, montou uma indústria caseira, perfeitamente compatível com as obrigações familiares, pois, considerava que o lugar da mãe é no lar.

       A pequena empresa de Zélia cresceu e, juntamente, o número de funcionárias, clientes e pedidos. Luís reconhecendo o cansaço e tamanha responsabilidade da esposa, vende sua joalheria, para ajudar e juntos administrarem a empresa. Foram cumpridores do ensinamento da Doutrina Social da Igreja, que diz: “O domingo é um dia a ser santificado com uma caridade operosa, reservando atenções à família e aos parentes, como aos doentes, aos enfermos, aos idosos.”

       As filhas do casal relataram que era notável a delicadeza do pai em santificar o domingo, que nunca abria sua relojoaria nesse dia e, também, não comprava de outros no dia do Senhor. Zélia, também relata em uma de suas cartas:

       "Admiro, muitas vezes, o escrúpulo de Luís e digo: "É um homem que nunca procurou fazer fortuna; ao iniciar seu negócio, o confessor lhe dizia que abrisse a joalharia, aos Domingos, até meio-dia. Não quis aceitar a permissão, preferindo perder boas ocasiões de venda. E, apesar de tudo, ei-lo rico. Não posso atribuir o conforto de que goza senão a uma bênção especial, fruto de sua fiel observância do Domingo."[2]

       Sempre a última a deitar-se, de pé, muitas vezes de cinco horas da manhã, às onze da noite, Zélia falava do "maldito" Ponto de Alençon, que lhe dava tantas preocupações. Entretanto, não consentia em ver sem serviço suas rendeiras que sofreriam com a falta do salário. Queria além disso por esse trabalho, assegurar o futuro de suas filhas.

 

       Os afazeres domésticos e de empresária, não impediam que Zélia, estivesse presente na educação das filhas, ela soube conciliar o tempo, mesmo que para isso, tivesse que sacrificar seu sono e conforto. “Se nossa mãe reprimia em nós as menores tendências defeituosas, gostava, entretanto, de ver-nos alegres e cheias de entusiasmo e mesmo recreava-se conosco, embora precisasse depois prolongar seu dia de trabalho até meia-noite ou mais.”[3]

       Embora a vocação essencial, para a mulher casada, seja no lar, como companheira do marido e educadora dos filhos, Zélia é um exemplo para as mulheres modernas, que precisam do trabalho, para ajudarem no sustendo da família e que vivem sobrecarregas de seus afazeres:

       “Eu tenho minhas duas meninas mais velhas, que estão de férias. O que é um verdadeiro prazer para mim, mas também um aumento real no trabalho porque eu tenho que cuidar de tudo o que precisamos para as férias de verão. Eu estou consertando todos os seus vestidos, por isso estou até o pescoço com as costureiras. E para além disso, tenho  demandas urgentes para esta semana; nenhuma está concluída, e isso é o que me preocupa. “(Carta 131)[4]

       Zélia em sua dupla jornada de mãe e rendeira, não preocupava somente com os trabalhos com as filhas e afazeres da casa, mas, em estar com elas, propiciando momentos de lazer em conjunto, ciente do bem que esses momentos de alegria trariam:

       “Diverti-me como uma criança a fazer paciências, escrevia ela, mas paguei cara a brincadeira: tinha de satisfazer uma encomenda urgente de rendas e não tive remédio se não fazer serão até à uma hora da manhã para recuperar o tempo perdido”. “Houve exposição de brinquedos e um jantarzinho completo para estrear o lindo serviço de porcelana: durou perto de duas horas a festa. As pequenas nunca se divertiram tanto. A Paulina esta noite disse-me: “Que pena já ter acabado o dia!”. Eu não era nada da mesma opinião, porque a três dias estou sozinha com esta pequenada e dão-me que fazer!”.[5]

       Luís sempre foi presente na vida das filhas, mas, após a morte da esposa, assumiu com responsabilidade ainda maior o seu papel. “Soube dividir seu tempo entre trabalho intelectual, a organização da casa, a gestão de sua fortuna, os deveres de piedade e a nossa educação.”[6] A respeito da importância da presença materna e paterna na vida familiar, a Exortação Amoris Laeitia afirma:

       "A mãe, que ampara o filho com a sua ternura e compaixão, ajuda a despertar nele a confiança, a experimentar que o mundo é um lugar bom que o acolhe, e isto permite desenvolver uma autoestima que favorece a capacidade de intimidade e a empatia. Por sua vez, a figura do pai ajuda a perceber os limites da realidade, caracterizando-se mais pela orientação, pela saída para o mundo mais amplo e rico de desafios, pelo convite a esforçar-se e lutar. Um pai com uma clara e feliz identidade masculina, que por sua vez combine no seu trato com a esposa o carinho e o acolhimento, é tão necessário como os cuidados maternos. Há funções e tarefas flexíveis, que se adaptam às circunstâncias concretas de cada família, mas a presença clara e bem definida das duas figuras, masculina e feminina, cria o âmbito mais adequado para o amadurecimento da criança".

 

Priscila Tuany Silva Graciano

Com. Amigos de Jesus

 

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[1] Exortação Apostólica Pós-Sinodal Amoris Laetitia. São Paulo: Paulinas, 2016 (Documentos da Igreja, 202)

 

[2] Idem 10.

 

[3] FACE, I. G. D. S. A mãe de Santa Teresa do Menino Jesus. [S.l.]: [s.n.], 1952.

 

[4] Irmã Genovena da Santa Face. A mãe de Santa Teresa do Menino Jesus (trab. do Carmelo do Imaculado Coração de Maria e Santa Teresinha). Cotia, 1965

 

[5] Idem 10.

 

[6] Idem 20.

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