Matrimônio, Fruto da História da Salvação (Parte I)

February 19, 2019

PARTE I : DO ANTIGO AO NOVO ÉDEN

 

       O livro do Gênesis até o capítulo 11 apresenta o que os exegetas chamam de pré-história bíblica. Isto porque ela não coincide com a pré-história universal e não tem o objetivo de propor teses das ciências naturais. O autor sagrado quis apresentar, em linguagem simbolista, explicações sobre algumas experiências fundamentais. Uma delas é a elevação do homem à amizade com Deus e a violação dessa ordem inicial pelo pecado. 

        Neste quadro, um casal desempenha um forte protagonismo. Adão e Eva significam o amor de Deus às criaturas que foram formadas à Sua imagem e semelhança. Eva tem a mesma natureza que Adão, pois foi tirada de sua carne. Ela é sua companheira, é a ajuda oportuna que o complementa, porque não era bom que Adão estivesse só (Gn 2,18). Deus é comunhão, é comunidade, é Trindade, e por isso a Sabedoria quis que o homem fosse também comunhão com um semelhante.
       Neste estado inicial “eles estavam nus e não se envergonhavam” (Gn 2,25). Não obstante Adão e Eva apresentarem, de alguma maneira, uma unidade corporal; “por isso, o homem deixa o seu pai e a sua mãe para se unir à sua mulher; e já não são mais que uma só carne” (Gn 2,24); eles viviam uma pureza original. A união carnal se dava, acima de tudo, como essência, através de uma unidade de essência criacional, ou seja, possuíam a mesma carne criada: “Eis agora aqui – disse o homem – o osso de meus ossos e a carne de minha carne; ela se chamará mulher, porque foi tomada do homem” (Gn 2,23). Era o que os unia e o que simbolizava; a mesma dignidade entre si e a amizade com Deus, pois estavam livres da concupiscência, como atesta o catecismo da Igreja:
       “O «domínio» do mundo, que Deus tinha concedido ao homem desde o princípio, realizava-se, antes de mais, no próprio homem como domínio de si. O homem era integrado e ordenado em todo o seu ser, porque estava livre da tríplice concupiscência, que o submete aos prazeres dos sentidos, à ambição dos bens terrenos e à afirmação de si contra os imperativos da razão”. (CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. Parágrafo 377)
       Porém, com o pecado, a dignidade que havia entre eles foi quebrada: "O homem respondeu: “A mulher que pusestes ao meu lado apresentou-me deste fruto, e eu comi”" (Gn 3,12). A graça da pureza original foi rompida e o vazio deixado no coração do homem através da ausência da amizade com Deus provocou uma carência profunda. Daí em diante, o ser humano irá necessitar da carne de seu semelhante, não mais de maneira unificante, para tentar preencher a lacuna causada pelo pecado original: "Disse também à mulher: ''Multiplicarei os sofrimentos de teu parto; darás à luz com dores, teus desejos te impelirão para o teu marido e tu estarás sob o seu domínio” (Gn 3,16). João Paulo II descreve esta mudança com relação ao estado unificante em que Adão e Eva se encontravam:
       "Aquele significado unificante se entende não só a respeito da unidade, que o homem e a mulher, como cônjuges, deviam constituir, tornando-se “uma só carne” através do ato conjugal, mas também com referencia à mesma “comunhão das pessoas”, que fora a dimensão própria da existência do homem e da mulher no mistério da criação. O corpo na sua masculinidade e feminilidade constituía o “substrato” peculiar de tal comunhão pessoal. O pudor sexual, de que trata Genesis 3,7, atesta a perda da original certeza de o corpo humano, através da sua masculinidade e feminilidade, ser aquele mesmo “substrato” da comunhão das pessoas, que “simplesmente” a exprima e sirva para a sua realização". (SÃO JOÃO PAULO II. Teologia do corpo: o amor humano no plano divino. 1a edição. Junho de 2014. Pag.142)   
       Assim testemunha as relações dos patriarcas. Abraão casou-se com Sarai e mesmo tendo recebido todas as bênçãos de Deus, terá seu primeiro filho com Agar, escrava de sua esposa. Apesar de a narrativa bíblica apresentar somente Rebeca como esposa de Isaac, sabemos que Jacó, David, Salomão e outras personagens bíblicas, tiveram várias mulheres e até haréns.  
       Logicamente, considerando o antigo Israel, não podemos medir a qualidade e a riqueza de uma vida conjugal somente pelo uso do critério da monogamia ou da poligamia. Contudo, ainda que a poligamia seja moralmente aceita neste período, mais do que um registro sociocultural, ela atesta uma deficiência, uma carência, um vazio a ser preenchido, evidenciado neste caso pela figura masculina. Após o pecado original, homem e mulher não mais conseguiram viver um relacionamento de complementariedade física, psicológica e espiritual que exaltasse a mesma dignidade e a plena felicidade de ambos. De certo modo, não se reconheceram mais como herdeiros de uma mesma natureza.
       Não obstante o livro de Tobias pertencer ao gênero literário sapiencial escrito no período helênico, ele se apresenta como uma pré-figuração do ideal matrimonial. Aqui há um salto de qualidade em relação à vida conjugal dos patriarcas. O romance apresenta a intervenção de Deus (Anjo Rafael) sobre a vida de Sara e Tobias, ambos pertencentes à tribo de Neftali.
       Sara já havia tido sete maridos que morreram no ato da consumação do casamento pela ação de um demônio. Com medo de se tornar a oitava vítima, Tobias tem receio de toma-la por esposa. Porém, o Anjo Rafael o apazigua: "Ouve-me e eu te mostrarei sobre quem o demônio tem poder: são os que se casam, banindo Deus de seu coração e de seu pensamento e se entregam à sua paixão como o cavalo e o burro, que não têm entendimento: sobre estes o demônio tem poder." (Tb 6, 16-17). E este foi justamente o pecado de Adão e Eva, baniram Deus de seu coração e de seu pensamento, por sugestão do demônio. Por isso o Anjo continua: "Tu, porém, quando te casares e entrares na câmara nupcial, viverás com ela em castidade durante três dias e não vos ocupareis de outra coisa senão de orar juntos." (Tb 6,18).
       Três dias vivendo o celibato, e em oração, se apresentam como uma antítese à perda da pureza original. O coração do peixe atua apenas como um sacramental onde a invocação da presença de Deus sobre o leito conjugal afasta qualquer poder do mal sobre os esposos. O livro de Tobias é um registro do desejo do homem de restaurar a dignidade da vida conjugal. Estes três dias simbolizam a boa vontade e a obediência de Sara e Tobias às orientações de Azarias (Anjo Rafael). Um pequeno sacrifício diante de tanta graça a ser derramada. 
       Castidade, oração, obediência, união carnal e vida, são elementos que se juntam e começam a se relacionar de uma forma nova no antigo testamento. O livro de Tobias prefigura, ainda que de forma imperfeita, uma realidade mais profunda e mais significativa que iria renovar completamente o sentido do casamento. Assim atesta a oração de Tobias:
       “Senhor, Deus de nossos pais, bendigam-vos o céu, a terra, o mar, as fontes e os rios, com todas as criaturas que neles existem. Vós fizestes Adão do limo da terra e destes-lhe Eva por companheira. Ora, vós sa­beis, ó Senhor, que não é para satisfazer a minha paixão que recebo a minha prima como esposa, mas unicamente com o desejo de suscitar uma posteridade, pela qual o vosso nome seja eternamente bendito." (Tb 8,7-9)
       Apesar de nobre, o desejo de suscitar uma posteridade pela qual o nome do Senhor seja eternamente bendito, não seria realizado através de um casal de Neftali. Caberia à Judá tal realização: “Não se apartará o cetro de Judá, nem o bastão de comando dentre seus pés, até que venha aquele a quem pertence por direito, e a quem devem obediência os povos” (Gn 49,10). José e Maria, ambos descendentes de Judá, foram os escolhidos por Deus para serem o caminho pelo qual o nome do Senhor seria eternamente bendito.

       Contudo, a participação deste casal no cumprimento desta profecia não aconteceria de forma ordinária. Todos conhecem a história da família de Nazaré. Quis a Divina Providencia preparar José e Maria para ser canal de restauração da pureza original corrompida por Adão e Eva. É comum descrever Jesus como o novo Adão e Maria como a nova Eva. Sem contrapor à Tradição da Igreja, a inserção de José no “lugar de Jesus”, cria um novo fato. Neste caso, José não é visto como o novo Adão de forma isolada. Ele está inserido na vida conjugal com Maria. Evidencia-se aqui o casal José e Maria no plano Divino.
       Se Tobias e Sara viveram três dias de celibato com a intenção de afastar a ação do mal sobre suas vidas, José e Maria ofertaram uma vida inteira na castidade perfeita. Tamanha grandeza é ainda mais exaltada pelo fato deste casal viver na mesma casa como uma tradicional família judia e se amarem. Apesar dos evangelhos não narrarem explicitamente uma declaração de amor, ambos demonstraram com a vida tal condição. Para o casal de Nazaré, podemos afirmar sem medo: “O homem e a mulher estavam nus, e não se envergonhavam” (Gn 2,25).
       A aceitação de Maria à proposta do Anjo Gabriel torna-se antídoto à proposta recebida por Eva, e a conformação do coração de José para com Maria, revela a nobreza humana contrária à acusação de Adão à Eva. O resultado desta “inversão cósmica” foi Jesus. O “Jardim do Éden” de Nazaré não estaria completo e não faria sentido sem a presença de Deus. A encarnação e o nascimento de Jesus atesta o desejo de Deus de restaurar a dignidade humana “recriando o Éden”. 
       Agora, o “novo Éden” tem a presença de um Deus menino. Se o casal do antigo Éden se escondeu da face do Senhor Deus no meio das árvores do jardim, o casal do “novo Éden” disse sim à face do Senhor na manjedoura de Belém: “O verbo se fez carne e habitou entre nós, e contemplamos sua glória, glória como de Filho único do Pai, cheio de lealdade e fidelidade” (Jo 1,14).

 

Fernando Emerick

Fundador da Comunidade Amigos de Jesus

Mestrando em Teologia Dogmática

 

 

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