Matrimônio, Fruto da História da Salvação (Parte II)

March 8, 2019

PARTE II : AS BODAS ENTRE DEUS E O HOMEM

 

      Para uma melhor compreensão da Encarnação de Jesus dentro do contexto proposto, a imagem da “tenda” apresenta-se como uma perfeita figura teológica. A tenda possuía uma simbologia emblemática para o mundo antigo e em especial para o povo de Israel. Deus ordena a Moises construir uma tenda onde a Arca da Aliança deveria ser guardada no “santo dos santos” . A Tenda da Habitação era assim chamada porque Deus, por vezes, colocava o escabelo de seus pés sobre o propiciatório (tampa da Arca da Aliança), ou seja, Deus habitava naquela tenda. A Tenda da Habitação era o centro físico, político e espiritual do povo de Israel na peregrinação até a terra prometida. As tribos de Israel também habitavam em tendas, pois eram seminômades. Nela dava-se o encontro dos esposos.  Assim, até hoje o povo hebreu celebra a Festa das Tendas fazendo memória da caminhada do deserto. 
       Toda a simbologia da tenda no meio de Israel age como uma grande pré-figuração de uma realidade muito mais profunda que haveria de acontecer na plenitude dos tempos, quando “o verbo de Deus se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14). A palavra habitou em Jo 1,14 possui no seu original em grego a forma εσκήνωσεν (pronuncia-se eskenosen). O verbo está no tempo verbal chamado aoristo que indica uma ação realizada uma vez para sempre, no passado, e que produz efeito até o presente. A tradução dos LXX usa esse verbo para a palavra hebraica shakan que deriva da palavra shekinah que significa Tenda da Habitação.
       No Monte Tabor, a proposta de Pedro de armar três tendas para Jesus, Moisés e Elias demonstra que ele ainda não compreendia o Mistério da Encarnação. Agora, Deus haveria de habitar não temporariamente em uma tenda construída com pele de animais, como no deserto, mas habitaria de uma vez por todas no corpo humano: “As raposas têm suas tocas e as aves do céu têm seus ninhos, mas o filho do homem não tem onde repousar a cabeça” (Mt 8,20). Deus se reveste definitivamente da carne humana e a elevaria a uma dignidade infinita. O corpo humano se torna a “tenda do encontro” entre Deus e o homem e finalmente a carência causada pelo pecado original pode ser saciada. A partir de agora Jesus é o Emanuel (Deus conosco).  Deus quis se “casar” com o homem sendo um com ele.
       “Casamento” é uma palavra que tem origem no Latim, vem de casamentum, que significa “terreno com uma habitação instalada”, o que era um dos principais passos para uma união estável. Este termo, por sua vez, é derivado de casa, que no latim tem um significado de “morada pobre”. Deus queria uma união estável com o homem e por isso assumiu nossa “morada pobre”. Neste contexto, a afirmação seguinte não seria nenhuma heresia: “E o verbo de Deus se fez carne” e casou-se conosco. 
       Segundo o Zohar, o casamento é a união de duas metades de almas que foram colocadas em corpos separados quando a alma desceu à terra. Nos planos Divinos essas “almas gêmeas” seriam reunidas através do casamento. Substituindo de forma análoga, as “almas gêmeas” pelo “criador e a alma criada à sua imagem e semelhança”, aplica-se facilmente esta definição de casamento para a relação Deus-homem, aqui, brilhantemente ilustrada por um poema de Santa Teresa, onde a mesma tem a consciência de “se encontrar em sua alma”. Alma esta, por ela tantas vezes retratada como a morada do Criador: 


"Tão fielmente pôde o Amor

Alma, em Mim, te retratar

Que nenhum sábio pintor

Soubera com tal primor

Tua imagem figurar. 


Foste, por amor, criada

Formosa, bela e assim

Dentro do Meu ser, pintada.

Se te perderes, minha amada,

Alma, procura-te em Mim. 


Porque Eu sei que te acharás

Em Meu peito retratada,

Tão ao vivo figurada

Que ao ver-te folgarás

Por te veres tão bem pintada. 


E se acaso não souberes

Em que lugar Me perdi,

Não andes daqui para ali

Porque se encontrar Me quiseres

A Mim, Me acharás em ti!


Em ti, que és meu aposento

És minha casa e morada.

Aí busco, cada momento,

Em que do teu pensamento

Encontro a porta fechada. 


Só em ti há que buscar-Me,

Que de ti nunca fugi;

Nada mais do que chamar-Me

E logo irei, sem tardar-Me,

E a Mim, me acharás, em ti!"


       “Curiosamente”, o primeiro sinal público de Jesus foi realizado em um casamento em Caná, uma cidade da região da galileia, no terceiro dia. As bodas tratam do desenvolvimento dos fatos ocorridos em um casamento segundo a cultura e os costumes judaicos. Um desses costumes era de se realizar os casamentos no terceiro dia da semana, que vem a ser a terça-feira do nosso calendário. Essa tradição deriva dos textos do livro do Gênesis 1,10 e 1,12, que descreve o terceiro dia da criação, onde Deus viu que era bom por duas vezes no mesmo dia. O nome da cidade em Hebraico – Caná – que vem do termo קָנָה “qana”, é o verbo “comprar”, “adquirir”. Era costume da época que o noivo “pagasse” ao pai da noiva para casar com a sua amada.

       Assim, o milagre da transformação da água em vinho em um casamento em Caná possui um significado de extrema importância. O vinho das bodas de Caná se apresenta como uma pré-figuração do Sangue de Cristo. No casamento entre Deus e o homem, Cristo é o noivo, mas também é o cordeiro ofertado. O sangue sela a aliança. A falta de vinho naquele casamento representa a ausência do selo divino. Aquele casamento foi singular na história da salvação porque Cristo ainda não havia derramado seu sangue na cruz ("Mulher, isso compete a nós? Minha hora ainda não chegou" (Jo 2,4)), porém, Ele está presente naquele casamento. Ele transforma água em vinho. Um vinho bom, um vinho puro, um vinho diferente. É o vinho melhor. Um vinho que marca uma nova realidade a ser concretizada. Um vinho que marca o início de sua vida pública e, de certa forma, o início de sua paixão.
       O casamento de Jesus com a humanidade é pautado pela entrega de si mesmo. Jesus entende perfeitamente esta realidade. Palavras como habitar, casar e desposar, adquirem um significado visceral em Jesus Cristo. Todas estas palavras tornam-se sinônimas de amor. O casamento de Cristo é um ato de amor: "Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida pelos seus amigos" (Jo 15,13). A amizade entre Deus e o homem, rompida pelo pecado de Adão e Eva, agora é reatada pelo sacrifício de Cristo. O sangue de Cristo é o vinho servido no casamento entre Deus e o homem. Jesus é o esposo, a Igreja é a esposa, seu sangue é o vinho melhor. 
       Neste casamento a união carnal se deu através da oferta total e literal do corpo de Cristo:
"Durante a refeição, Jesus tomou o pão, benzeu-o, partiu-o e o deu aos discípulos, dizendo: “Tomai e comei, isto é meu corpo”. Tomou depois o cálice, rendeu graças e deu-lho, dizendo: “Bebei dele todos, porque isto é meu sangue, o sangue da Nova Aliança, derramado por muitos homens em remissão dos pecados." (Mt 26, 26-28) 
       O casamento de Adão e Eva não foi capaz de perpetuar a amizade Deus-homem. Agora, o próprio Deus firma uma aliança com o homem com o seu próprio Corpo e Sangue, remindo a humanidade de seus pecados. Felizes os convidados para a ceia das núpcias do Cordeiro (Ap 19,9). A última ceia também é uma ceia de casamento, de bodas e núpcias. Felizes são aqueles que compreenderam este Mistério de Amor e aceitam este convite para serem desposados por Cristo. 
       Contudo, porque Deus quis se casar com o homem? Também interpela o salmista: "Que é o homem – digo-me então –, para pensardes nele? Que são os filhos de Adão, para que vos ocupeis com eles?" (Sl 8,5). A resposta para esta pergunta é muito simples: "Deus é amor" (1Jo 4,8), Deus ama o homem; por isso, o objetivo deste casamento é fazer com que a união entre Deus e o homem seja eterna. A salvação do homem se deu através de um casamento:
       "Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele. Assim como o Pai que me enviou vive, e eu vivo pelo Pai, assim também aquele que comer a minha carne viverá por mim. Este é o pão que desceu do céu. Não como o maná que vossos pais comeram e morreram. Quem come deste pão viverá eternamente". (Jo 6, 56-58)

 

Fernando Emerick

Fundador da Comunidade Amigos de Jesus

Mestrando em Teologia Dogmática

 

 

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