Matrimônio, Fruto da História da Salvação (Parte III)

May 6, 2019

PARTE III : MATRIMÔNIO, SACRAMENTO DO AMOR

 

       O casamento definitivo entre Deus e o homem, através de Jesus Cristo, renova todas as coisas (Ap 21,5), principalmente o sentido e o significado do casamento. Eva foi dada a adão porque, como descrito no início deste trabalho, não era bom que o homem estivesse só (Gn 2,18). Após o pecado original, o casamento sofre a ação da tríplice concupiscência e as relações conjugais são pautadas pela carência humana e pela dominação. Agora, o homem casou-se com Deus (ou Deus casou-se com o homem) e aqueles que conheceram Jesus, sabem que só n’Ele podem se sentir plenos e felizes.

       Após a encarnação, morte e ressurreição de Cristo, faria sentido, então, o casamento humano para a realização do homem? Durante o império romano foram construídas diversas vias que eram utilizadas para a mobilização bélica da “Pax Romana”. Posteriormente, a Igreja nascente muito utilizou destas vias para levar o Evangelho a todos os povos. Contudo, o Espírito do Senhor já havia escolhido uma via muito especial para que a verdadeira paz pudesse chegar ao coração do homem: a família. Deus escolheu vir ao mundo através da formação de uma família a partir de um casal.

       A encarnação de Jesus Cristo gera uma família nova. Logicamente, como descrito anteriormente, já existiam famílias que se relacionavam com Deus antes do Natal do Senhor, porém, a criação da família de Nazaré renova e dá um novo sentido e uma nova dignidade às famílias. Se Deus escolhe ser família é porque este caminho certamente nos “leva a Roma”, ou melhor, nos leva a verdadeira paz que tanto buscamos:

 

       "Dentre essas numerosas estradas, a primeira e a mais importante é a família: uma via comum, mesmo se permanece particular, única e irrepetível, como irrepetível é cada homem; uma via da qual o ser humano não pode separar-se. O mistério divino da Encarnação do Verbo está, pois, em estreita relação com a família humana. Não apenas com uma — a de Nazaré —, mas de certo forma com cada família, analogamente a quanto afirma o Concílio Vaticano II do Filho de Deus que, na encarnação, «Se uniu de certo modo com cada homem». Seguindo a Cristo que «veio» ao mundo «para servir» (Mt 20, 28), a Igreja considera o serviço à família uma das suas obrigações essenciais. Neste sentido, tanto o homem como a família constituem «a via da Igreja." (CARTA DO PAPA JOÃO PAULO II ÀS FAMÍLIAS , 1994, artigo 2, § 1)

                                                                                                 

       Assim, o casamento e a família ganham um novo significado: O de ser sinal visível da união entre Cristo e sua Igreja e o de ser a via da própria Igreja. A Igreja nasce como a congregação daqueles que se casaram com Cristo. Aqueles que receberam o Seu sangue como o selo da nova e eterna Aliança. Surge assim, o casamento como sacramento deste casamento maior. A união física, psicológica e espiritual que havia entre Adão e Eva, em Cristo, foram restauradas e elevadas a uma magnitude ainda mais significativa. Agora, Deus não apenas passeia em um jardim junto com suas criaturas. Agora Ele é um com cada casal, porque é um com cada batizado. O Jardim é o coração do homem, que busca no seu cônjuge e com o seu cônjuge se tornarem casa de Deus.

       O coração do peixe usado por Tobias torna-se uma pré-figuração do coração de Cristo derramado no “braseiro” da Cruz. O amor de Jesus por sua Igreja, demonstrado na doação total de Sua vida, converte-se em fonte de graças abundantes para o casal. Ao mesmo tempo, este amor acolhido pelos esposos é convertido em sinal para a humanidade. A doação total dos esposos torna-se sinal visível (sacramento) do amor de Jesus Cristo pela sua Igreja e por todos. O matrimônio torna-se então uma imitação de Cristo, ou melhor, do amor de Jesus Cristo para com sua Esposa-Igreja:

 

       "Esta revelação chega à sua definitiva plenitude no dom do amor que o Verbo de Deus faz à humanidade, assumindo a natureza humana, e no sacrifício que Jesus Cristo faz de si mesmo sobre a cruz pela sua Esposa, a Igreja. Neste sacrifício descobre-se inteiramente aquele desígnio que Deus imprimiu na humanidade do homem e da mulher, desde a sua criação; o matrimônio dos batizados torna-se assim o símbolo real da Nova e Eterna Aliança, decretada no Sangue de Cristo. O Espírito, que o Senhor infunde, doa um coração novo e torna o homem e a mulher capazes de se amarem, como Cristo nos amou. O amor conjugal atinge aquela plenitude para a qual está interiormente ordenado: a caridade conjugal, que é o modo próprio e específico com que os esposos participam e são chamados a viver a mesma caridade de Cristo que se doa sobre a Cruz." (FAMILIARIS CONSORTIO, artigo 13, § 3)

 

       Esta doação total deve caminhar para uma união muito além da carne. Não que a união carnal seja algo pejorativo ou de valor menor no sacramento do matrimônio, pois da mesma forma que o mistério salvífico redime o corpo humano, também redime o ato conjugal; visto que o mesmo está inserido dentro do mesmo mistério de doação total. Porém, quando entendido e vivido de forma verdadeira, como já dito anteriormente, o matrimônio se apresenta como uma pré-figuração da união definitiva e plena do homem com o seu Deus.

       Assim, se o céu é definido como a união da alma humana com a de Deus (com a Trindade); pode-se afirmar que o matrimônio é a melhor e a mais perfeita pré-figuração desta realidade, já que o celibato se apresenta como uma antecipação escatológica. Esta pré-figuração pode ser embasada quando Tertuliano chega a afirmar que no matrimônio há a união de espíritos:

 

       “Numa página merecidamente famosa, Tertuliano exprimia bem a grandeza e a beleza desta vida conjugal em Cristo: «Donde me será dado expor a felicidade do matrimônio unido pela Igreja, confirmado pela oblação eucarística, selado pela bênção, que os anjos anunciam e o Pai ratifica? ... Qual jugo aquele de dois fiéis numa única esperança, numa única observância, numa única servidão! São irmãos e servem conjuntamente sem divisão quanto ao espírito, quanto à carne. Mais, são verdadeiramente dois numa só carne e donde a carne é única, único é o espírito.” (FAMILIARIS CONSORTIO, artigo 13, § 4)

 

       Da mesma forma Paulo VI na encíclica Humanae Vitae, ressalta a dignidade do matrimônio e do amor conjugal. Um amor humano e espiritual que é chamado a crescer no cotidiano da vida unindo-se ao mistério de Cristo a ponto dos esposos tornarem-se um só coração e uma só alma, dentro da perfeição humana:

 

       “É, antes de mais, um amor plenamente humano, quer dizer, ao mesmo tempo espiritual e sensível. Não é, portanto, um simples ímpeto do instinto ou do sentimento; mas é também, e principalmente, ato da vontade livre, destinado a manter-se e a crescer, mediante as alegrias e as dores da vida cotidiana, de tal modo que os esposos se tornem um só coração e uma só alma e alcancem juntos a sua perfeição humana.” (HUMANAE VITAE, artigo 9, § 2)

 

       E o que é a perfeição humana se não outra coisa do que a santidade?  E o que é a santidade se não uma alma perfeitamente desposada por Cristo? O segredo de todo casamento está na fidelidade do homem para com Deus. Um coração indiviso em Cristo capacita-o a amar o seu semelhante: "Se alguém disser: “Amo a Deus”, mas odeia seu irmão, é mentiroso. Porque aquele que não ama seu irmão, a quem vê, é incapaz de amar a Deus, a quem não vê." (1Jo 4,20). O amor conjugal é figura viva do amor cristão e da vivencia do evangelho.

       Tudo isto posto, talvez não haja uma figura bíblica específica que melhor defina ou represente o casamento, pois o sacramento do matrimônio é fruto de toda a história da salvação e principalmente do mistério salvífico de Cristo Jesus. O conjunto das figuras bíblicas como; Adão e Eva, Sara e Tobias, José e Maria e as Bodas de Caná, se juntam e ganham um novo significado quando associadas à Cristo crucificado. A Cruz sempre será o maior sinal de amor de Deus pela humanidade e todo casamento deve sempre ter sobre seus olhos a imagem da Cruz para que se torne um verdadeiro sacramento de amor visível para a humanidade que cada dia mais se divorcia do Deus.  

 

 

Fernando Emerick

Fundador da Comunidade Amigos de Jesus

Mestrando em Teologia Dogmática

 

 

<< PARTE II

Please reload

                  ARTIGOS                 

Matrimônio, Fruto da História da Salvação (Parte III)

May 6, 2019

1/4
Please reload

Please reload