Casamento, sacramento da criação

Durante o Império Romano foram construídas diversas vias que eram utilizadas para a mobilização bélica da “Pax Romana”. Posteriormente, a Igreja nascente muito utilizou dessas vias para levar o Evangelho a todos os povos. Contudo, o Espírito do Senhor já havia escolhido uma via muito especial para que a verdadeira paz pudesse chegar ao coração do homem: a família. Deus escolheu vir ao mundo através da formação de uma família. A encarnação de Jesus Cristo gera uma família. Logicamente, já existiam famílias a milhares de anos antes do Natal do Senhor, porém, a criação da família de Nazaré renova e dá um novo sentido e uma nova dignidade às famílias. Se Deus escolhe ser família é porque esse caminho, certamente, nos “leva a Roma”, ou melhor, nos leva a verdadeira paz que tanto buscamos.

Todavia, Dom Muller, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, de 2012 a 2017, afirma que a mentalidade contemporânea está bastante em contraste com a compreensão cristã do matrimônio, sobretudo, em relação à sua indissolubilidade e à abertura à vida[1]. Ele considera que muitos cristãos são influenciados por tal contexto cultural e que os matrimônios são, provavelmente, com mais frequência não válidos nos nossos dias de quando o eram no passado, porque é deficitária a vontade de se casar segundo o sentido da doutrina matrimonial católica e, também, a pertença a um contexto vital de fé é muito limitada.

A sociedade atual, diante desse pressuposto, seria imatura e egocêntrica, ou o matrimônio católico seria uma utopia para os dias atuais? As famílias e as catequeses não estariam formando cristãos autênticos, maduros o suficiente para compreender o significado do matrimônio ou, na prax, não se aplica critérios objetivos para ministrar o sacramento? O cristianismo deve-se contentar com o secularismo vigente e adaptar-se aos “casais modernos”? Deve-se render às “novas formas de família”? Para questões complexas não há soluções simples. Provavelmente, a porta larga seria uma entrada fácil para o caos social. Não adianta construir ilusões para obter os aplausos daqueles que querem o fim da Igreja de Cristo. Não seria honesto e verdadeiro.

Na árdua tarefa de estabelecer pilares de uma estrutura e de uma vivência familiar rica, sólida e feliz; urge recorrer a antigos e novos “tijolos” para reerguer a “casa” do matrimônio católico. E, como pede todo bom empreendimento, “deve-se começar do começo”.

São Tomás de Aquino propõem provar a existência de Deus por meio de cinco vias[2]. Na quinta via, ele afirma que os corpos naturais, que carecem de conhecimento, operam em vista de um fim; necessitando agir sempre de um mesmo modo, a fim de obter sempre o melhor resultado, donde resulta que chegam ao fim, não pelo acaso, mas pela intenção. Ele segue afirmando que, os seres sem conhecimento não tendem ao fim sem serem dirigidos por um ser inteligente. Assim, há um ser inteligente pelo qual todas as coisas naturais se ordenam ao fim, e ao que chamamos Deus. Ao crer em Deus, todo cristão também crê que Ele tudo criou: Nele foram criadas todas as coisas nos céus e na terra, as criaturas visíveis e as invisíveis. Tronos, dominações, principados, potestades: tudo foi criado por ele e para ele[3]. Porém, como Deus criou todas as coisas?


O livro do Gênesis, segundo a Tradição da Igreja, reúne tradições hebraicas, que à luz da exegese bíblica, auxilia na compreensão do relato da criação do homem. O relato bíblico: Deus criou o homem à sua imagem; criou-o à imagem de Deus, criou o homem e a mulher (Gn 1,27); pertence à fonte Sacerdotal (P), remonta ao tempo do exílio da Babilônia (586 a 538 a. C.)[4]. Esse relato, que não é um tratado científico, procura salientar a existência de um único Deus criador, demonstrando a importância do homem e da mulher no projeto de Deus, feitos à imagem e semelhança D’ele.

Já o segundo relato: O Senhor Deus formou, pois, o homem do barro da terra, e inspirou-lhe nas narinas um sopro de vida e o homem se tornou um ser vivente (Gn 2,7); é da fonte Javista (J) e faz referência ao tempo do Rei Salomão (século X a.C.)[5]. Esse usou a imagem do Deus oleiro, que fez o homem da argila, porque o oleiro era uma figura muito comum naquele tempo. Dessa forma, o escritor sagrado demonstra que o homem é criado, moldado por Deus. Esse segundo relato, cronologicamente, foi escrito antes do relato do capítulo primeiro do Gênesis.

Como dito anteriormente, os relatos bíblicos não constituem uma narrativa científica da criação do mundo. Contudo, a comunidade científica, mesmos nos dias atuais, não possui uma teoria que seja unânime entre eles. Outrora, grandes cientistas, como Issac Newton, acreditavam que Deus está por trás da existência do universo: A maravilhosa disposição e harmonia do universo só pode ter tido origem segundo o plano de um Ser que tudo sabe e tudo pode. Isto fica sendo a minha última e mais elevada descoberta[6]. Ao se contemplar o universo em expansão, a magnitude do astro rei Sol, com seus planetas que permanecem em constante reverência e a Terra como único corpo celeste onde é conhecida, até então, a existência de vida; não se pode desprezar a existência humana colocando-a na prateleira da insignificância universal.

O que se sabe sobre a vida? O que foi apresentado ou descoberto sobre este vasto universo? A grosso modo, sabe-se da existência de um universo que apesar de ser considerado por alguns como infinito, ainda, pouco apresenta-se como palpável. O certo é que, dentro do que se pode degustar com honestidade realista, a Terra e o homem continuam sendo os protagonistas do que se pode chamar de uma existência, fisicamente, infinita, ou que tende ao infinito; no que se refere ao próprio universo. Considerando essa premissa, pode-se fazer uma pergunta que interpela esse protagonismo do ser humano: Por que Deu criou o homem e por que Deus criou a mulher?


Ó Senhor, nosso Deus, como é glorioso vosso nome em toda a terra! Vossa majestade se estende, triunfante, por cima de todos os céus...Quando contemplo o firmamento, obra de vossos dedos, a lua e as estrelas que lá fixastes: ‘‘Que é o homem – digo-me então –, para pensardes nele? Que são os filhos de Adão, para que vos ocupeis com eles? Entretanto, vós o fizestes quase igual aos anjos, de glória e honra o coroastes. Destes-lhe poder sobre as obras de vossas mãos, vós lhe submetestes todo o universo.[7]


O salmista não relata uma inquietude textual para com a criação. Contudo, os versículos em questão expressam uma admiração e uma gratidão por reconhecer que Deus se importa com o homem e essa admiração pode ser facilmente estendida ao conteúdo da criação: O que é o homem para tê-lo criado? Os textos sagrados de rica teologia que relatam a criação, citados anteriormente, apresentam toda a criação de Deus como um ato deliberado de amor. Assim, o homem é fruto da vontade e do amor de Deus. Entretanto, existe dois fatos inusitados no ato criador: Deus criou o homem à sua imagem; criou-o à imagem de Deus, criou o homem e a mulher[8]. O primeiro é que Deus cria o homem à sua imagem e o segundo, que está relacionado ao primeiro, faz referência à criação do homem e da mulher. Apesar do Aquinate afirmar que Deus não possui gênero[9] e que o homem criado é imagem imperfeita de Deus[10], homem e mulher refletem algo que está contido em Deus, ou melhor, refletem o próprio Deus, mesmo que de forma imperfeita. Sendo assim, homem e mulher são expressões do amor de Deus. Deus quis se expressar criando algo semelhante a Ele e quis se expressar através do homem e da mulher.


Segundo o código sacerdotal (Gen1,1-2.4a), a reciprocidade sexual masculino-feminino pertence ao ato criador e representa um reflexo do próprio ser de Deus e da sua perfeição: o ser humano é desejado pelo criador em sua imagem e semelhança precisamente como homem e como mulher, igual por natureza, mas, diferente por ser recíproco.[11]


Roccheta afirma que o ser humano não é um, mas dois, não é homem, nem mulher, mas um ser uni-dual criado como imagem e semelhança de Deus[12]. Se levarmos em consideração apenas o relato sacerdotal ou mesmo considerando a criação do homem e da mulher no relato javista como uma única peça; homem e mulher constituem apenas um; frutos de um único ato criador. Daí a complementariedade externada na sexualidade e na atração mútua. A união física, emocional, psicológica e espiritual entre um homem e uma mulher, vividas de forma salutar, constituem o casamento natural que sob o olhar da teologia é a realização do desejo de Deus para com a sua criação.

Assim, a homossexualidade, que é apresentada após o pecado original, fere profundamente a obra da criação indo radicalmente contra o desejo de Deus: Não te deitarás com um homem, como se fosse mulher: isso é uma abominação.[13] O capítulo 18 do livro do Levítico está contido na quinta parte do mesmo (17-26), onde Deus conclama a comunidade a ser santa: sejam santos, como eu sou santo[14]. Muito desse material é produto do tempo do exílio na Babilônia, por isso o “código da santidade” é uma proposta de sobrevivência da identidade israelita. A seção inicia com as proibições religiosas (Lv 17), a seguir vêm as proibições sexuais (Lv 18). De uma forma geral, as proibições sexuais apresentadas no Levítico, tais como o adultério, o incesto e o homossexualismo, são uma tentativa do resgaste da graça da santidade original.

Ainda no sexto dia da criação Deus abençoa o homem e a mulher: Deus os abençoou: Frutificai – disse ele – e multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a. Dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se arrastam sobre a terra[15]. A benção veio em forma de uma ordem: Frutificai e Multiplicai-vos. A ordem de gerar filhos parece estar intimamente ligada à toda a obra da criação, pois, compõe o sexto dia. A criação do homem e da mulher compreende, de forma intrínseca, o fim natural que é a prole[16]; um fim natural, fruto de uma atração natural, que é fruto da criação. Por isso, pode-se dizer que, Deus ao criar o homem e a mulher, de certa forma, cria toda a humanidade como uma única obra, ainda inacabada.

Em conformidade, o Salmo 8 e Gênesis 1,28 se apresentam complementares e endossam a teoria da submissão de todo o resto da criação ao homem e à mulher. Criar, gerar e submeter, são palavras que compõem um quadro teológico que nos remete a uma pergunta: Por que Deus quis que homem e mulher dominassem sobre o mundo criado? Uma resposta poderia ser: porque só o homem foi criado à sua imagem e semelhança. Sim, Deus deu o poder ao homem de ser o seu administrador na Terra; o que poderia resultar em uma segunda resposta: para serem seus administradores. Porém, apesar de ser uma nobre e necessária missão, ela se apresenta como um motivo no campo materialista ou funcional. Essa última, se apresenta como consequência da primeira resposta.

Homem e mulher são semelhantes a Deus. E, dentro desse leque de semelhanças está a paternidade e a maternidade. Homem e mulher são chamados por Deus a gerar frutos, a se multiplicarem e a se tornarem pai e mãe, porque Deus é Pai e porque Deus é Mãe. A paternidade de Deus é, vastamente, apresentada na literatura bíblica: Contudo, Senhor, tu és o nosso Pai. Nós somos o barro; tu és o oleiro. Todos nós somos obra das tuas mãos (Is 64,8)[17]. Já a maternidade divina não apresenta tantas referencias bíblicas. Entretanto, encontramos bons exemplos como o do texto de Isaías: Porventura pode uma mulher esquecer-se tanto de seu filho que cria, que não se compadeça dele, do filho do seu ventre? Mas ainda que essa se esquecesse dele, contudo eu não me esquecerei de ti[18]. Apesar do versículo não fazer referência à maternidade divina de forma objetiva, pode-se facilmente ponderar: dificilmente uma mãe esquece-se de seu filho e, ainda que isso aconteça, Deus não o faria. Dessa forma, o amor de Deus é colocado acima do amor de mãe ou ainda, o amor de Deus é colocado como o amor de uma “supermãe”. Assim, também, argumenta Maurice Zundel[19] em uma de suas conferências:

Maria revela o lado feminino de Deus, ela nos revela a maternidade de Deus. Nos permite orar a Deus em feminino, como a uma Mamãe. É verdade! Deus é mais mãe do que todas as mães! E podemos dizê-lo “Mamãe”. Finalmente, quando estamos sem palavras, quando já não sabemos o que dizer, quando a oração parece árida na boca, nos resta este grito, este grito que diz tudo, “Mamãe”… esse grito pode brotar do coração até Maria, porque no inconsciente é, justamente, uma mulher que nos revela a maternidade de Deus.[20]

Zundel afirma em sua obra que todas as mulheres são expressões da maternidade de Deus e que Maria, mãe de Jesus, é a máxima expressão da maternidade divina. Postergando discorrer sobre Maria, cabe aqui retornar à criação do homem e da mulher.

Voltando ao sexto dia da criação, novamente, nos encontramos com o quadro descrito anteriormente: criar, gerar e submeter. Os elementos “criar” e “gerar”, apresentam uma ligação muito mais visceral do que podem apresentar em um primeiro momento. Deus cria homem e mulher e os ordena a se multiplicarem. Como, também descrito anteriormente, Deus ao criar homem e mulher, também, cria toda a humanidade. Dessa maneira, homem e mulher atuam como “co-criadores” junto a Deus:

Chamados a dar a vida, os esposos participam do poder criador e da paternidade de Deus (cf Ef 3, 14; Mt 23, 9). “No dever de transmitir e educar a vida humana - dever que deve ser considerado como a sua missão específica - eles são os cooperadores do amor de Deus criador e como que os seus intérpretes. Desempenhar-se-ão, portanto, dessa missão com a sua responsabilidade humana e cristã” (GS 50, 2).[21]

Homem e mulher são co-criadores ou cooperadores? Somente Deus pode criar em sentido próprio, o que significa dar origem às coisas do nada, e não a partir de algo pré-existente[22]; para isso, requer-se uma potência ativa infinita que só Deus possui[23]. Também, essa cooperação ou “co-criação” não constitui uma ajuda ao plano salvífico, porque Deus não precisa de ajuda. Constitui, sim, uma adesão e uma imitação da paternidade e da maternidade de Deus. Nesta esteira, homem e mulher, ao obedecer à ordem dada no sexto dia da criação continuam “criando” ou imitando a Deus, aderindo à proposta de gerar vidas.

Tudo isso posto, pode-se afirmar que Deus não apenas criou o homem, mas, sobretudo criou a família, pois, não era bom que o homem estivesse só[24]. Os dois relatos da criação apontam para essa realidade, mesmo considerando o relato do capítulo primeiro do livro do gênesis mais amadurecido, como afirma João Paulo II, em relação ao relato do segundo capítulo. O primeiro relato da criação do homem em Gênesis 1, como posto anteriormente, nos versículos 27 e 28, apresenta a criação do homem e da mulher juntamente com a ordem de se multiplicarem. Já no segundo relato, a criação da família aparece de forma espaçada: Em gênesis 2,7 Deus cria o homem: O Senhor Deus formou, pois, o homem do barro da terra, e inspirou-lhe nas narinas o sopro da vida e o homem se tornou um ser vivente. Nos versículos 21 e 22, Deus cria a mulher: Então, o Senhor Deus mandou ao homem um profundo sono; e enquanto ele dormia, tomou-lhe uma costela e fechou com carne o seu lugar. E da costela que tinha tomado do homem, o Senhor Deus fez uma mulher, e levou-a para junto do homem.

Apesar do segundo relato não apresentar uma ordem direta à procriação, é possível deduzir a partir de Gn 2, 24: Por isso, o homem deixa o seu pai e a sua mãe para se unir à sua mulher; e já não são mais que uma só carne; juntamente com Gn 3, 16: Disse também à mulher: Multiplicarei os sofrimentos de teu parto; darás à luz com dores, teus desejos te impelirão para o teu marido e tu estarás sob o seu domínio. Cabe ressaltar que, apesar de Gn 3,16 se configurar como uma pena dada por Deus após o pecado original, não podemos concluir que a procriação, no segundo relato, é fruto da punição de Deus. É fato que em Gn 2,24, antes da queda, Deus já havia ordenado a união carnal de Adão e Eva. É justo concluir, baseado nesses dois versículos, que na união carnal do primeiro homem e da primeira mulher já estava a potência da vida.

Mesmo não havendo relatos de que Eva teve filhos antes do pecado original, ao somarmos os dois relatos da criação, é factível concluir que, se não fosse a queda, ela os teria. A família, então, pode ser posta como a obra prima da criação de Deus. Portanto, a família não é um conceito meramente antropológico ou cultural. Ela tem um fim antropológico, mas, também metafísico. O que se faz lembrar e atualizar uma pergunta inicial: Porque Deus criou o homem e a mulher? Ou melhor: Porque Deus criou a família?

Voltando ao segundo relato da criação temos em Gn 2, 8: E eis que ouviram o barulho (dos passos) do Senhor Deus que passeava no jardim, à hora da brisa da tarde. O homem e sua mulher esconde­ram-se da face do Senhor Deus, no meio das árvores do jardim. Deus passeava no jardim para encontrar com a mais bela de suas criações. Esse encontro e essa convivência foram interpretados pela Igreja como uma relação de amizade: O primeiro homem não só foi criado bom, como também foi constituído num estado de amizade com o seu Criador, e de harmonia consigo mesmo e com a criação que o rodeava...[25]

Essa amizade não era uma amizade como a amizade que Deus tinha com Abraão[26], uma amizade justificada pela fé. A amizade de Adão e Eva era uma amizade existente antes do pecado original. Era uma amizade que compreendia a participação na vida divina[27]. Dessa forma, Deus cria a família para que ela participe da beatitude de Deus em uma relação de amizade. Na verdade, essa participação já é a amizade em si. Deus não cria a família para aumentar sua beatitude e muito menos para adquiri-la. Essa amizade ou essa participação é fruto da graça da santidade original[28] e compreende simplesmente a contemplação da própria beatitude divina.

João Paulo II se baseia em Mateus 19, 3-9, onde Jesus se posiciona contra o divórcio dado por Moisés. O ponto chave dessa passagem é a alusão ao “princípio” feita por Jesus: É por causa da dureza de vosso coração que Moisés havia tolerado o repúdio das mulheres; mas no princípio não foi assim.[29] E, também, em Efésios 5,22-33 onde São Paulo exorta a marido e mulher terem um relacionamento semelhante ao de Cristo para com a Igreja, além de mencionar Genesis 2,24[30]. Todos esses versículos, associados aos relatos sacerdotal e javista da criação do homem e da mulher, corroboram para que o Pontífice desenvolva uma Teologia Sacramental onde faz-se uma leitura da história da salvação sob o olhar do Sacramento do Matrimônio. Para ele, a santidade conferida, originariamente, ao homem por parte do Criador pertence à realidade do "sacramento da criação” donde o matrimônio está inserido como sacramento primordial:


Aquela santidade conferida originariamente ao homem por parte do Criador pertence à realidade do "sacramento da criação". As palavras do Génesis 2, 24 "o homem unir-se-á à sua mulher; e os dois serão uma só carne", pronunciadas com base nessa realidade originária em sentido teológico, constituem o matrimónio como parte integrante e, em certo sentido, central do "sacramento da criação". Elas constituem — ou confirmam até talvez simplesmente o carácter da sua origem. Segundo essas palavras, o matrimónio é sacramento enquanto parte integral e, diria, ponto central do "sacramento da criação". Nesse sentido é sacramento primordial.[31]


Assim, o casamento é considerado como sacramento da criação por que é, segundo João Paulo II, sinal que transmite eficazmente no mundo visível o mistério invisível escondido em Deus desde a eternidade[32]. Por isso, Cristo o “protege”. O primeiro homem e a primeira mulher, enquanto uma só carne, são esse sinal visível do mistério invisível escondido em Deus que é o próprio Cristo. Ao mesmo tempo, é sacramento primordial porque é fonte de todos os futuros sacramentos, já que é sacramento do próprio Cristo ainda escondido em Deus.

Uma análise do casamento a partir do relato da criação do homem e da mulher nos permite, à luz da história da salvação, estabelecer parâmetros confiáveis para o relacionamento humano. O cristão católico há de crer que homem e mulher foram criados por amor, à imagem e semelhança de Deus. E que essa particularidade do ser masculino e do ser feminino expressa a riqueza do Ser de Deus, mas, também expressa a deficiência da criatura que necessita ser preenchida pelo diferente, por algo que ele não tem. Assim, o amor humano entre homem e mulher torna-se um sacramento do próprio Deus. Não é bom que o homem esteja só[33] porque sozinho, homem ou mulher, não conseguem ser sinal do Amor Maior. Sozinho o ser humano é incompleto: Mal passara por eles, encontrei aquele que meu coração ama. Segurei-o, e não o largarei antes que o tenha introduzido na casa de minha mãe, no quarto daquela que me concebeu.[34]

Se assim não fosse, o ser humano seria assexuado, ou seja, um clone dele mesmo. A sexualidade humana, também, quer expressar essa riqueza escondida dentro da “potência criacional”. A diversidade das cores, raças, alturas, biotipos em geral, constituem uma explosão que revela a magnitude de Deus. A ordem dada por Deus para que homem e mulher se multipliquem poderia ser traduzida como: Amem-se! Vivam! Proliferem o meu amor! A abertura à vida conecta o casal ao céu. É a maior oração que homem e mulher podem fazer juntos. A abertura à vida quer fazer acontecer a plenitude da criação.

O parágrafo anterior poderia ser acusado de ser demasiadamente romântico ou poético. Mas, o que é um romance se não a expressão e o exercício de um desejo de ser feliz e pleno? Não é esse o desejo de Deus para com a sua criatura? Todavia, mesmo que venham a sofrer porque praticam a justiça, vocês serão felizes[35]. Por vezes, sofrimento e felicidade andam juntos, como criatura e criador, quando o casal opta por ser sacramento do Amor. Quando rezamos na oração do Pai Nosso: Santificado seja o teu nome; não significa que o nome de Deus tem que se tornar mais santo, pois, não há como acrescentar santidade em Deus ou em seu nome. Significa que a vida do cristão, e neste caso a do casal, tem que testemunhar a existência de Deus perante os homens. Isso é ser sacramento!

É possível compreender e experienciar tal Mistério no qual a graça santificante do Espírito Santo nos capacita a vivenciá-lo. Quando Jesus se posiciona contra o divórcio em Mateus 19, ele não quer apenas dar uma lição de moral aos presentes ou simplesmente posicionar-se contra a lei mosaica ou mesmo restaurar uma ortodoxia judaica que nunca existiu. Se assim ele o faz, é porque o casamento está inserido no Mistério Salvífico. Sendo assim, não pode ficar restrito ao campo das paixões.


Fernando Emerick

Fundador da Comunidade Amigos de Jesus

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[1] A12. Disponível em: < https://www.a12.com/redacaoa12/igreja/artigo-de-dom-mueller-sobre-matrimonio-familia-e-cuidado-pastoral-dos-divorciados> [Consultado em 2 de maio de 2020].

[2] AQUINO, Tomás. Suma Teológica. v. I, parte I. Questão 2. Art 2. 4ª ed. São Paulo: Editora Ecclesiae, 2016.

[3] Cl 1,16.

[4] Referncia da tradição sacerdotal.

[5] Ibidem. Javista.

[6] Principia, Book III; citado em; Newton’s Philosophy of Nature: Selections from his writings, p. 42, ed. H.S. Thayer, Hafner Library of Classics, NY, 1953.

[7] Sl 8, 2-7.

[8] Gn 1,27.

[9] Suma vol1, q.3, art 5.

[10] Suma vol1 q93 art1.

[11] Livro do carlo rocheta pagina49. Teologia da família.

[12] Ibidem.

[13] Lev 18,22.

[14] (Lv 19,2; 20,26)

[15] Genesis1,28.

[16] Suma vol5, q.41, art1.

[17] Outras citações bíblicas da paternidade de Deus: Pai para os órfãos e defensor das viúvas é Deus em sua santa habitação (Sl 68,5); Entretanto, tu és o nosso Pai. Abraão não nos conhece e Israel nos ignora; tu, Senhor, és o nosso Pai e, desde a antiguidade, te chamas nosso Redentor (Is 63,16); Portanto, sejam perfeitos como perfeito é o Pai celestial de vocês (Mt 5,48); Todas as coisas me foram entregues por meu Pai. Ninguém conhece o Filho a não ser o Pai, e ninguém conhece o Pai a não ser o Filho e aqueles a quem o Filho o quiser revelar (Mt 11,27).

[18] Is 49,15.

[19] Teólogo suíço.....

[20] María, revelación de la maternidad de Dios. En la Abadía Cisterciense de Timadeuc, en abril de 1973. Ya publicada en este sitio el 11-14/02/11.

[21] CIC 2367.

[22] Suma Vol1. Q45 art5.

[23] (cf. Catecismo, 296-298)

[24] Gn 2,18.

[25] CIC 374.

[26] São tiago 2, 23. "Assim se cumpriu a Escritura, que diz: Abraão creu em Deus e isto lhe foi tido em conta de justiça, e foi chamado amigo de Deus.

[27] Cic 375.

[28] CIC 376

[29] Mt 19,8.

[30] "Por isso, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois constituirão uma só carne.

[31] Catequese JP II 6 de outubro de 1982

[32] Ibidem referência 54.

[33] Gn 2,18.

[34] Cântico dos cânticos 3,4.

[35] 1Pd 3,14.

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